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terça-feira, 17 de agosto de 2010

domingo, 27 de junho de 2010

O mapa da Colina: conversa no Barracão

Matou a cobra, tem que mostrar o pau.

Falta pouco agora para colocar a última das peças no lugar, para ver a colcha de retalhos da terras da Colina do Sol. Mas para mostrar que é assim, e não de alguma outra maneira, é preciso mostrar as evidências.

Remexer as papeis do cartório era um emprendimento solitário e frustrante. Sair a pé pelo Morro da Pedra, conversando com os nomes nas papeis, foi um dos aspetos mais agradáveis deste empreendimento todo. O lugar é lindo, e as pessoas simpáticas. Tinha sol demais, ou frio demais, e gastei sapato, mas tinha churrasco e festas juninas e doces caseiros, também.

Quando fui para Morro da Pedra pedir ajuda das pessoas locais, foi quando comecei entender as terras da Colina do Sol. Minhas tentativas inicias foram baseadas nos papeis do Registro de Imóveis, que descrevem os tamanho de cada lote e seus vizinhos, mas que não fornecem nenhuma referência geográfica que poderia ser apontado numa mapa.

A falsa pista chave

Tinha somente uma ligação entre o mundo das papeis dos cartórios, e o mundo real: o hotel, lago e restaurante ficavam no lote de registro 2025. Mas isso é errado. Obviamente, começando com a peça errada bem no meio da quebra-cabeça, nunca daria para montar. Na realidade, o Hotel Ocara fica num terreno de posse, sem escritura no Registro de Imóveis.

Quando cheguei em Taquara pela primeira vez em março de 2008, fui para o Barracão de Morro da Pedra - sem avisar antes os amigos dos acusados do caso Colina do Sol, para que eu poderia conseguir informações que não fossem filtrados, sobre Fritz Louderback e seu ONG. Foi lá que verifiquei que ele contava a verdade sobre o ONG e as aulas de futebol, e a corja da Colina estava mentindo. Foi para lá que fui no sábado, 11 de julho de 2009, para perguntar sobre as terras.

A trilha começou no Barracão

Há almoço no Barracão todo sábado, sempre churrasco. Na cozinha em frente do churrasqueira Jairinho estava jogando cartas com amigos do Morro da Pedra, e ele e Batista (João Batista Vaz de Rosa) me falaram um pouco das terras, e onde poderia obter mais informações.

Me disseram para procurar o João Guelo, "um baixinho de chapeu, que pode ser encontrado no Bar do Japa." Encontrei ele, várias vezes, sempre lá e sempre de chapeu.

Um dos donos das terras no morro que virou Colina do Sol era João Jaques, um solteiro que não deixou herdeiros. Me falaram que pagaram MIROMAR [Miromar Benkenstein Nunes], um advogado de Entrepelados, para registrar suas terras, mas que Miromar passou a perna em João Jaques.

"As terras de João Francisco da Rosa fazia divisa com a casa do Barney", conforme Jairinho, que construi várias das casas da Colina, trabalhando desde a primeira construção.

O MAURO MULLER de entrepelados, era dono de muito, e "ROBERTO FISCHBORN tem tudo registrado no parte leste."

Ouvi mais de uma vez de mapas, mas até agora vi somente o que o topógrafo Tutti preparou da Colina do Sol em 2005, ao pedido de Fritz Louderback. Houve uma mapa de Zé Silveiro, que seria nas mãos de Fernando.

Darci vendeu tudo que juntou

"Darci vendeu tudo, e não tem mais nada lá" ouvi, que é importante porque enquanto Darci andou juntando as terras, que depois vendeu para Edu Carlos e seus parceiros, o terreno de José Antônio da Silva, de registro 46.485, pela palavra corrente, foi comprado pelo Darci, mas nem esta compra nem a venda subsequente, jamais foram registrados.

Realidade no outro lado da divisa

Um coisa que queria saber era a situação da casa de Fritz Louderback. Estava nas terras penhoradas para garantir as dívidas de Celso Rossi, ou estava sem este onus? Sendo que a casa dele fica numa das divisas da Colina, descobrir os vizinhos pareceu a maneira mas fácil de proceder, pois no mundo real as coisas são mais fáceis do que entre os papeis fajutas e explicações sem nexo da Colina do Sol

A casa de Fritz Louderback está no lado norte da Colina, me disseram, e o vizinho do outro lado da divisa seria IDALINO [Idalino Correa, cujo nome aparece nas escrituras de posse da tabelião, de números 8008 e 8183]. "Pedro Silveira faz divisão para lá", mas anotei mal - parece que Pedro Franciso Carvalho da Silva é o nome certo.

Fui mostrando os papeis do cartório. José Antônio da Silva, do registro 46.485, é morto, mas deixou os herdeiros Eloi [anotei mal, é Erenani Elberto da Silva] e Fernandes, este primeiro tendo a lanchetaria em frente ao colégio Jorge Fleck. Porém antes de morrer, ele vendeu o terreno para Darci Farias. A mesma pessoa que Darci Dorivaldo Ermel Nunes, casado com Lorita Benkenstein Nunes - viz. MIROMAR. Darci está vivo, ouvi, e mora na praia - até me deram a nome da cidade.

EDIN, o ex-cunhado de Douglas, tem terras em Pega Fogo que fazem divisa com a Colina.

José Constantino Hermer (Ermel?) tinha 400 hectares por ai. Nas minhas anotações, há o especulação que seja parente de Constantino Antônio da Silva Filho, que aparece em vários registros.

O José Antônio, que Douglas conhece, sabe de tudo.

A Chacara de Pedra, que fica no Beco de Araújo menos de meio kilómetro da Colina, e lá por baixo é de Carmargo, mas "náo tem registro". "Custa caro legalizar, tem que fazer inventário" me falaram, que explica muito das lacunas nos papeis do Registro de Imóveis.

Desta para o melhor

Perguntei dos outros nomes das papeis, e ouvi que Vendelino é morto, e Belizar Martins da Silva, e José Silveira, cujos terras faz divisa no parte do norte.

No bar do Japa

No mesmo dia, subi o Beco de Araújo até o bar da Japa, a procura de João Guelo. Encontrei no mesmo lugar Luis Silveira, filho de José Silveira que consta como divisa no registro 9854, e neto de Olímpio Silveiro. Vendelino era primo do seu pai. Sua mãe está viva, e "tem uma mapa, a escritura e os números."

A família ainda tem "30 hectares, um terreno que "vem de lá perto do rio, a estrada passa por cima. Não é muito largo, mas vem lá do fundo."

Tiras estreitas

Esta informação de Luis Silveira foi muito útil para montar a mapa. No Google Maps se enxega as marcas das divisas entre mato e pasto e as linhas de cercas, e realmente os terrenos da Morro da Pedra foram traçados em longas tiras vindo do rio, quando este foi o único meio de transporte na região. As peças da quebra-cabeça seguem esta lógica de tiras finas, sendo rectángulos compridos, e não quadrados.

No Japa, ouvi também dos vizinhos no oeste. Teobaldo morreu faz 4, 5 anos, e seu herdeiro Luis Antônio faz divisa com a Colina em Pega Fogo. As terras dele fazem divisa com os que eram de João Jaques. Almiro Tavares é outro vizinho.

Outros vizinhos e herdeiros

Loureci Correa da Silva é filho do finado Idalino Correa, e mora numa casa azul atrás da Colina. Talvez ele vendeu a terra que fazia divisa com Fritz. "Procura com ele", fui avisado, "dos quatro irmãos ele é o maior, e sabe de tudo."

"Edegar tem informações melhor", ouvi, "mora na curva, no direto" na Estrada da Grota, indo na direção da estrada Integração.

Marcírio Farias, cujo nome parece na escritura 46.485, é o pai do Darci.

Roberto Fischborn, cujo genro estava no Barracão, está vivo, e mora para o leste e o norte, perto da casa do finado IDALINO.


Aqui terminam minhas anotações daquele dia. Os conselhos foram boas, e lendo de novo depois um ano, se eu tivesse seguido todos à risco e de imediato, teria chegado a mapa correto muito mais cedo.

sábado, 17 de abril de 2010

Taquara e São Francisco de Paula

Hoje é o aniversário de 124 anos de Taquara. Ontem, foi inaugurado o novo ginásio da escola Theóflo Sauer. Eu fui porque já vi e gostei da "banda marcial" da escola em outros eventos cívicos. Reconheci e fui reconhecido por vários figuras da cidade, como o presidente da Camera de Vereadores, dois dos jornalistas do pedaço - Oscar do Jornal Integração, e Vinicius do site Paranhana Online. E enquanto nunca tinha visitado a escola, quando fui informado de pegar a rua Picada Gravata, já a reconheci como o lugar da morte de Zeca Diabo.

Vendo que tanto gente me conheço, noto que é a terceira aniversário de Taquara que passo aqui, longe da minha familia, empenhado em desfazer as falsas acusações que nascerem dos sementes de inveja e ciumes da corja da Colina, brotaram com o sede de alcançar fama às custas dos outros da polícia, e foram regadas pela incompetência e falta de ética da imprensa.

Terminando este caso - e todas os indícios agora são de que os quatro serão inocentados - é preciso questionar, por fundo, porque tanto esforço honesto (para nem falar do empenho dos três equipes de advogados, todos competentes, e os muitos outros antes e além de mim que trabalharam no causo) por tanto tempo, seria preciso para vencer umas mentiras mal-contadas.

A festa continua

A festa de aniversário continuou hoje com um desfile de carretas de boi até a praça frente à Prefeitura. Parte do evento foi uma mutirão de carteira de identidade, conduzida por técnicos do Instituto Geral de Perícias/Instituto de Criminalistica. Vendo o carro com o logotipo da IGP/IC, fui ver o que estavam fazendo, e fiz questão de apertar o mão de um, e agradecer o trabalho deles.

Não duvido que a podridão vai fundo na polícia gaúcho, com dois chefes de departmentos - Juliano Ferreira e Bolívar Reis Llantada - participando na fraude do caso Colina do Sol. Mas foi o trabalho honesto da IGP/IC que desmascarou as mentiras dos delegados e inspetores.

Em todo lugar tem gente honesta. O perigo não é que os maus agem, mas que os bons nada fazem. Na IGP/IC, os bons agiram, e foi bom ver los.

Geografia de São Franciso de Paula

O dia inteiro houve uma exposição no Parque dos Trabalhadores, perto do Fórum. Foi a primeira vez que vi movimento na rua em frente ao Fórum, onde aconteceu a manifestação em favor dos acusados, já faz dois anos.

Na exposição tive a opportunidade de falar com Iuri Buffon, que mora na cidade vizinha de São Francisco de Paula, mas trabalha para a prefeitura de Taquara, na Divisão de Geoprocessamento, que utilize software de uma empresa de São José do Rio Preto (onde provoquei o promotor João Santa Terra a confessar que somente um perito estava examinando as "evidências" pegos com uma força-tarefa de 60 no caso Catanduva) .

Na minha primeira visita a Morro da Pedra, não encontrei Isaías Moreira em casa. Ele estava fora, fazendo trabalho agricultural (plantando repolho, se a memória serve) em São Francisco de Paulo, onde a clima é diferente. Estranhei, sendo que a distância em quilômetros é pouco, mas ficou na lista de mistérios de baixa prioridade.

Há diferença, sim. O grande fator é elevação. São Franciso de Paula tem até 920 metros de elevação. O parque onde conversávamos é somente 47 metros acima do mar, que me supreendeu bastante - sempre imaginei que Taquara era meia serra subida. Não é. No margem do rio, o topografia desce a 16 metros, e enquanto o ponto mais alto do município é 702 metros, este fica quase na borda com S. Franciso.

Onde é tanto mais alto, é muito mais frio, a temperatura média sendo 14 graus. As nuvens sobrem, esfriam - e chove. É o lugar no Rio Grande do Sul que mais chove, "quase Amazonica", conforme Igor, que me passou seu tese de formatura sobre a geografia da região.

A última fator que ele contou é que o solo no S. Franciso é mais fértil, com muito matéria organica.

Apesar da chuva e terra fértil, e do tamanho, é um município muito mais pobre que Taquara. "E um ilha cultural e geográfico", disse Igor.

sábado, 21 de novembro de 2009

As escolas de Morro da Pedra

(Repostagem, com informações adicionais.)

Há duas escolas em Morro da Pedra. A Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Dona Leopoldina atende até a quarta série. É morro acima, na Estrada da Grota, que leva para Colina do Sol, tão próximo que a pedaço de terra que Taquara adquiriu para construir a escola em 1990, saiu da mesma gleba de 24 hectares, que formou parte da Colina.

A diretora da Dona Leopoldina, Carla Jordana Ronnau Bomerich falou com a polícia nas primeiras dias depois das prisões do Quatro da Colina, e foi chamada para depor como testemunha de acusação.

Uma indício de qualidade de escola nos EUA é o número de crianças em cada sala de aula. No caso da escola Dona Leopoldina, parecem ótimas, entre 19 e 24 alunos.

Colégio Jorge Fleck

A estrada Integração passa pelo meio de Morro da Pedra, separando Taquara de Parobé. A Igreja Católica e seu Barracão ficam no lado Taquara da estrada, e no outro lado o colegio Jorge Fleck fica em Parobé.

A estrada Integração em frente ao Fleck é pavimentado com pedra ferro das pedreiras da região, e o ginásio da escola está encravado no morro, o paredão de arenito atrás com a marcas de extração.

Fui lá a primeira vez para a formatura no final de 2008. Fritz Louderback estava preso, e era o tipo de evento ao que ele compareceria. Dois dos jovens que constam no processo se formaram aquele noite. Um estava como "vítima", e outro como testemunha. Um terceiro - também "vítima" - tinha abandonado as aulas, mas ali estava para ver os amigos se formarem.

A formatura aconteceu no ginásio, onde o piso de tacos de peroba tinha sido instalado com verbas conseguido por Fritz Louderback. Estava cheio, não somente dos formados e seus pais, mas da comunidade toda, pois era realmente um evento comunitário.

Fui bem recebido por muito gente ai, "vítimas", pais, e vizinhos, e hostilizado por ninguém. Não deu para entender os pronunciamentos - meu português não conseguiu vencer os sotaques locais e a acústica do ginásio. Mas já ouvi discurso de formatura de colégio.

O jovem que ficou de testemunha é uma historia interessantes. Ele escapou de ser "vitima" porque as irmãs dele tinha também recebido os benzesses da ONG New Faces de Fritz Louderback, como bicicletas. Quando a mãe dele prestou depoimento em Porto Alegre, saiu do Palácio da Polícia pela porta de trás, porque a polícia não queria que a imprensa falasse com ela. É que na mentira da polícia e da corja da Colina, quem Fritz beneficiou "foi sempre meninos". Em qualquer linchamento, é bom sempre apresentar os acusados com "outro", e tachar os acusados de homossexuais foi uma maneira.

Gosto por matemática

Passei no Colégio Fleck de novo este setembro, e conversei com um grupo de alunos aguardando seus ônibus. Apesar da toda a ba-fa-fá do caso Colina do Sol, não tinham nenhuma hesitação em falar com um gringo mais velho, muitos querendo ensaiar um pouco do seu inglês.

O colégio tem um total de 8 salas, e funciona em dois turnos. Há nove professoras e um professor. Uma aluna da 8a série e outra da 5a disseram que tinha 30 alunos nas suas salas; outros alunos deram números de 22, 23, 26 e 27, todos tamanhos aceitáveis pelos padrões americanos.

Me surpreendi que vários dos alunos apontaram matemática como seu assunto predileto, uma dizendo "adora matemática" e destacando a professora Rosalia. Outra falou muito bem do professor, "senhor Chris". Vários dos meninos escolherem educação física com sua matéria preferida.

Uns dos alunos de Fleck tinham estudado antes na Dona Leopoldina. Outros disserem que vinham da escola de Morro Pelado, que é "muito bom" mas como Leopoldina, só vai até a quarta série.

Conforme a diretora, Marília, o limite de tamanho de turmas é de 35 alunos, mas "Aqui no interior é diferente, e a turma maior atualmente é de 30." Notou sobre a matemática que "muitos reclamam da disciplina."

Perfil dos alunos

Marília diz que o colégio varia de ano em ano, mas que mais meninos do que meninas estudam. "Todos que estão na idade escolar, cujos pais entendem a necessidade." Atualmente é 325 alunos entre os dois turnos, o da manha sendo maior.

Sobre o desafio de dirigir o Colégio, ela disse que "Até sendo no interior é mais fácil trabalhar. Há um entusiasmo maior." A diretora é da região, e vários dos jovens com que falei durante meu trabalho são parentes dela.

Transporte escolar

As crianças das redondezas antigamente iam a pé ou de bicicleta, algumas andando vários quilômetros, mas agora a prefeitura leva de perua, ou "Topic" na linguagem local. A diretora da escola diz que oito anos já há transporte escolar.

Numa certa época uma perua parava na porta da Colina do Sol para levar as crianças naturistas para as aulas, mas isso foi antes da corja afastar quase todo mundo do lugar.

Indo além da oitava série

Conforme as crianças, a maioria para na oitava série. Os jovens de Morro da Pedra que continuam seus estudos depois da 8a série vão para Taquara, Parobé, ou Sapiranga, 15 quilômetros distante.

A melhor escola pública de Taquara é CIMOL. Antes da chegada de Fritz na Colina, nenhuma criança de Morro da Pedra conseguiu entrar no CIMOL. Cristiano Fedrigo entrou; Cleiton vai se formar este ano; e outros dois que se formaram no Fleck ano passado entraram. Há e haverá outros, que conseguiram quebrar o ciclo de pobreza.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

De fusca verde

Fui para Praia do Pinho para a eleição da FBrN convocado por Dr. André Herdy, carregando comigo a procuração do presidente de direto e de fato da Federação. Dr. André, que já fez muito para a FBrN e para o naturismo no Brasil, não estava a fim de fazer um discurso. Queria transmitir o cargo, na forma que mandem as leis da Republica e os estatutos da Federação.

Como procurador, escolhei como presidente da mesa Sr. César Fleury Moraes, e como secretário, Sr. Edson Geraldo Silveira (o "Nupinho"), e lhes entreguei a condução da reunião e a redação da Ata. Que comentarei assim que seja registrada.

Agradeço a hospitalidade dos donos da CAPOP, que cederem o espaço para a reunião.

Digo que sai de Taquara determinado a conduzir minha parte do procedimento vestido. Quando precisava, esperava, e pleitava a ajuda da FBrN, aderei aos modos e costumes de naturismo. Agora que não preciso mais, resolvi fazer questão de destoar.

Neste viagem, houve muito das besteiras de juventude, como vimos abaixo. Porém, há gente boa no naturismo, o dia estava quente, eu já estava melecado de protetor solar. E enquanto o entusiasmo e espontaneidade dos jovens e bom, realmente não vejo porque abraçar idiotices como protestos simbólicos. Usei a roupa para forrar a cadeira, e fiz o que foi me pedido.

FBrN não haverá seu Zelaya

A chapa nomeado por Dr. André foi encabeçado por Sr. José Antônio Tannus, que a partir da eleição ficou o presidente de fato da FBrN, e a partir do registro será o presidente de direto, também. Quem enxerga grandeza na FBrN e sua Presidência poderia encarar isso como a maneira escolhido pelo Dr. André para evitar que o naturismo brasileiro tivesse seu Zelaya.

Reunindo os cinturões

Pessoalmente, prefiro a analogia das federações múltiplas de boxe, cada um com seu campeão, que de vez em quando promovem um "title unification bout", em que um único boxeador sai como o campeão mundial incontestado, com todos os cinturões.

E falando um reunir cinturões, quando as fotos voltarem, vi que realmente para naturistas, tem que ser cinturões: cintos não servem. Para minha parte, já comecei fazer regime.

Parabéns ao novo presidente

Transmito aqui meus parabéns e votos de sucesso para sr. José Tannus. Na eleição irregular no Mirante de Paraíso em março deste ano, não tinha a oportunidade de fazer isso. A reunião tinha sido conduzida às portas fechadas, contrariando a lei e invalidando a eleição se esta não já tivesse estivesse nula por outras irregularidades. Na hora que foram abertas as portas falei dos assuntos de substância que me levaram lá, e que deveriam ter sido tratados mais cedo. Mas agora, meus parabéns.

O fusca verde

A opção sensata para chegar ao reunião é o ônibus direto de Taquara que sai toda noite as 21:00 para Balneario Camboriu. Profissional, barato e comodo, o último importante pois estou com pelo menos uma costela trincada depois de uma queda duas semanas atrás. Assim levaria minha mala e seguiria viagem depois para SP, tranqüilo.

O ônibus é o opção sensato. Escolhi ir no fusca verde de Douglas, junto com sua namora Suzane e outro jovem de Morro da Pedra, Cleiton.

Pegar estrada de fusca

Pegar estrada de fusca é coisa de juventude, que nem ser preso durante manifestação. Para começar, precisava reduzir a bagagem ao que caberia na mochila pequena. Depois, foi reunir os viagantes. Douglas não tinha avisado a namorada sobre a natureza da praia, e ela achava que a ocasião merecia uma nova biquíni. Enquanto ela fazia as compras, procuramos Cleiton para cima e para baixo. Finalmente, com Suzana (que acabou não comprando a biquíni) já na fusca, encontramos Cleiton no novo rodoviária de Taquara, de onde pretendia voltar para Morro da Pedra juntar suas coisas. Entrou no fusca sem nem uma escova de dentes.

Saindo de Taquara ao meio-dia, foi sete horas de estrada até Praia do Pinho, com uma única parada, para colocar mais óleo na transmissão da fusca, e comer uns pasteis. A costela agüentou bem a viagem, mas o estômago não. Cheguei ao Pinho tonto, logo precisei correr para o banheiro, e apaguei até domingo.

Barraca, cabana, e fusca

O plano original foi levar tanto a barraca de Cleiton quanto a de Douglas, mas chegamos somente com esta última. Aluguei então um quarto no chalé, e enquanto deu para orientar os jovens sobre como montar a barraca (algo em que jé fui craque), na hora de arranjar um colchão para o chão, eu já estava fora de combate.

Cleiton, então, vendo como que os quartos do chale são "aconchegantes", para assim dizer, resolveu dormir na fusca. Isso também faz parte de juventude.

Os quartos, ainda que pequenos, são limpos e sem sinal de bolor ou umidade. A escada é íngreme, ainda mais para quem desce com a cabeça girando, procurando o banheiro.

Minha impressão inicial de Praia do Pinho foi a qualidade da manutenção. Tudo estava limpo, funcionando, com a manutenção em dia. O bar que separa a camping da praia era de madeira que agüenta a maresia, com parafusos de bronze, que escureceram mas não enferrujaram. Belo contraste com a Colina do Sol,  onde tudo parece que está em manutenção, ou deveria estar, pois tudo é construído de maneira mais barato possível, visando o lucro imediata, e a exploração posterior do freguês cativo.

Além do mais, foi bom dormir com o barulho do mar, e acordar com a alvorada.

Domingo com churrasco

A manha de domingo foi ocupado pela reunião, mas a tarde os jovens fizerem churrasco, e Douglas colocou o papo em dia com antigos conhecidos do Pinho, da época em que ele morou lá uns meses. Encontramos até pessoas que eu já conhecia, como Márcio, que foi barrado da Colina, apesar de portador de passaporte naturista, para sua temeridade em insistir no seu direto legal de lá visitar seu amigo Douglas.

Encontramos também a ex-Sra. Zumbi, e sua filha pequena e encantadora, que em nosso primeiro encontro tinha me informado que "tenho uma moeda com sua cara." Eu tinha visitado sua casa um ano atrás, quando Douglas morava lá. Os pai dele sendo preso, e sua mãe temendo para a vida dele na Colina (um herdeiro brasileiro dificultaria o confisco da casa dos americanos pela corja da Colina), achei que alguém deveria vistar-lo. E gosto do rapaz.

Saideira

Entregando a chave e desmontado a barraca, estávamos com a pé na estrada. Eu para a rodoviária, e os jovens (sem a "mala sem alça", eu entendi) iam para a casa nova da ex-Sra. Zumbi, e regressariam a Taquara na manha de segunda-feira.

Logo fora do camping, a festa no estacionamento estava animada. Douglas distribuiu pão e lingüiça, e a insistência das suas amigas, estacionamos. Depois uns minutos, uma das meninas decretou nossa roupa "imoral", e procedeu a nos despir.  Não encontrou resistência.


Desastre na estrada

O fusca, que na ida tinha dado serviço impecável, começou vazar óleo entre Camboriu e Biguassu. Encostamos, e pouco tempo depois Márcio parou atrás. Tinha de carona a família da ex-Sra. Zumbi, e também a casca de uma tartaruga morta, que tinham separada na praia de grande parte da carne já apodrecendo do bicho.

Esqueci de tirar foto da casca da tartaruga, mas realmente o que fica na memória não foi a aparência, mas o cheiro, insuportável. Tinham viajado com todas as janelas abertos para que o perfume do bicho incomodasse os motoristas vindo atrás.

O fusca não tinha jeito: foi de guincho do concessionário da estrada para Biguassu. Já estava as 20:00, e achei que o ônibus para Taquara saísse do rodoviário de Florianópolis as 21:00. Cleiton tinha aula as 07:00 de segunda-feira, e uma prova na terça, e com o fusca encrencado, não tinha previsão para ele voltar. Márcio então levou nos dois para o rodoviário, com poucos minutos de sobre, e saímos correndo na chuva para voltar para a vida real.

Concurso

Só que não tinha ônibus para Taquara, nem para Porto Alegre, nem para São Paulo ou outro lugar qualquer. O agente de passagens de Viasul (cujo ônibus para Taquara sai de Floripa as 22:20, e não as 21:00) informou que tinha aquele domingo um concurso público na cidade, com 23 mil inscritos, e não tinha passagem. Para Porto Alegre fomos informado que somente na meia-noite de segunda-feira.

Comprei então a passagem de Cleiton para segunda à noite, chegando em Taquara uma hora antes da sua prova. Na chuva, cansados, sabendo que os hotéis já estariam lotados com outros que não conseguiram lugar nos ônibus, estávamos com 24 horas para matar em Floripa.

Bem que há lugares piores para ficarem ilhados.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A morte de Zeca Diabo

O caso Colina do Sol - tanto a farsa contra os sete acusados, quanto a impunidade do gangue da Colina - tem como cenário freqüente o Fórum de Taquara. O que acontece no caso, e ainda mais o que deixa de acontecer, tem como palco o Fórum.

É só olhar ao lado direto do blog, onde há uma longa lista dos processos que brotaram do desejo do gangue de expulsar gente das suas casas, e roubar seus bens.

Eu estava no Fórum ontem a tarde, na Sala do Juri, assistindo o processo do assassinato de Ezequiel Sílvio dos Santos, conhecido como "Zeca Diabo".

Eu nunca ouvi falar antes da Zeca, cujo vida curta incluiu várias passagens pelo Febem antes de terminar no tarde de 8 de março de 2003, quando ele morreu com três tiros, dois dados pelas costas, no campo de futebol da rua Picada Gravata onde tinha acabado de jogar uma partida.

Personagens

É um hábito meu de sempre tentar ver pessoas envolvidos nos assuntos em que estou trabalhando. As vezes aprendo algo, nem sempre o esperado: por exemplo, de que é possível chegar a dois metros do ministro de Defesa do Brasil sem credenciais nem gravata. Mostra a diferença entre Brasil que tem ministro de Defesa, e os EUA quem tem ministro de Guerra sob outro nome.

O juiz da morte de Zeca Diabo é Mm. Juliano Etchegaray Fonseca, o mesmo que percebeu o concilium fraudis entre CNCS, Naturis, e Celso Rossi, e agiu prontamente, revertendo a falência. No outro lado, é ele também que não viu urgência nenhuma em Cristiano Fedrigo sendo posto fora da sua casa pelo CNCS. O CNCS argumentou que agora que já tinham matado a mãe dele, Cristiano não tinha mais direto de passar pela portão que CNCS construiu na estrada municipal.

As duas decisões são de grande importância para a resoluão dos problemas que me trouxeram para Taquara. Bom, então, tentar entender algo a mais sobre o homem.

Também presente foi a promotora Dra. Lisiane Messerschmidt Rubin, que também viu indícios de fraude na falência, e logo vai resolver se faria denúncia, e de quem.

Escolhendo os jurados

Cheguei uns minutos depois da hora marcada de 13:45, e havia umas 30 pessoas presentes - a platéia da Sala de Juri comporta somente 50. Na fileira na minha frente era pessoas de meia-idade, e meia-pardas, destoando da brancura e juventude de quase todos os restantes. Notei muitas mulheres jovens, e no corredor de meio, uma capacete cor-de-rosa chamava atenção.

Tempo passou, mas a platéia estava comportada. Depois um tempo, o juiz olhou para nós, e disse "Alguém sabe porque está demorando?" e explicou que o réu estava conferindo com o defensor.

Eventualmente começou, com a escolha do juri. Foi dito primeiro que ninguém poderia servir que era parente de alguém que atuou no caso, e ai veio uma longa lista de promotores, juízes, e desembargadores. Fiquei surpreso com quantos nomes reconheci: juizes de Taquara, o juiz substituto de Igrejinha, promotores, e muitos outros que também atuaram no caso Colina do Sol.

Sempre ouvi que juri no Brasil é bem diferente da população em geral, com um predominância de funcionários públicos aposentados: pessoas que sempre receberam contra-cheques sem atraso, cortesia do contribuinte, e que teriam dificuldade de entender porque as pessoas comuns não conseguem sempre pagar suas contas em dia.

Porém, somente um dos jurados, o quinto chamado dos sete, aparentava ter alcançado meia-idade. Os primeiros dois que foram da platéia para os assentos do juri (o mesmo lugar onde os acusados sentaram nas audiências do caso Colina do Sol) eram muito jovens mesmo, um aparentando uns 25 anos e outro talvez nem 20. Dois levaram seus capacetes de moto juntas, uma sendo a cor-de-rosa. Quando tinha sete (poucos foram preteridos pela promotora ou defensor, e sem perguntas de qualquer tipo) o restante do pool foi dispensado.

Todos os jurados escolhidos foram brancos, e somente um dos dispensados foi um negro. Poderia dizer que o Sul é assim mesmo, mas faz duas semanas assisti o juramento da bandeira, com todos os jovens de 18 anos de Taquara, e aqui há pretos e pardos, sim, e não são poucos.

Juiz de Direto Dr. Juliano Etchegaray Fonseca

Em pessoa, Dr. Juliano foi diferente do que eu tinha imaginado. É jovem, magro, aparentando uns 30 ou 35 anos, umas entradas no seu cabelo preto sendo o único marca de maturidade. Vestiu uma camisa de azul clara com um suéter verde e calça jeans, sem gravata. Outra talvez sinal de idade foi um relógio de pulso: não é daqueles que já descartou este invenção de Santos Dumont em favor do celular.

Eu tinha imaginado que seria alguém mais velho, talvez porque quando encontro juízes, tendem a ser do São Paulo Capital, e das camadas mais elevadas do judiciário. Como em todas as profissões, juízes também começam jovem, e começam em comarcas do interior, que nem Taquara.

Bom destacar a diferença entre ser sério, e ser solene. A solenidade sem a seriedade é uma doença ocupacional dos trabalhadores da Justiça. Não vi sinais deste defeito. A maneira dele mostrou confiança na sua autoridade. Qualquer um pode tratar um réu simples de "senhor", mas quando o réu se enrolou no seu depoimento - deixando a impressão que conversou com a vítima depois de deferir nela as balas fatais - Dr. Juliano conseguiu com perguntas e paciência extrair um relato coerente.

Verdadeiro, talvez não, mas o papel do juiz é de ser imparcial, não de deixar frases de dupla interpretação.

Dra. Lisiane Messerschmidt Rubin

A falência de Naturis deve logo chegar nas mãos da Dra. Lisiane, conforme o despacho mais recente do Dr. Juliano, a não ser que vai para o Ministério Publico Federal. Alguém que seria bom entender, então.

Dra. Lisiane, até mais jovem que o juiz, vestia preto no tarde do julgamento, com saltos bastante altos, e cabelo loiro até os ombros. Estava de calças, mas não notei nenhuma mulher de saia ou vestido.

Ela falou, como o defensor depois dela, bem de frente para os jurados. Para os quatro jurados na fileira de traz, deu o processo para poderiam acompanhar seus argumentos, e para os de frente, mostrou sua própria cópia, liberalmente marcada com aqueles papeizinhos amarelos autocolantes. Ela pediu desculpas para a qualidade das poucas fotos, dizendo que os recursos da Polícia Civil eram parcas, ainda mais em 2003.

Jorge, o réu, se diz assaltado

Jorge, o réu, ficou no mesa no lado aposto da sala, olhando para o juri, no mesmo assento que era do Dr. Marcelo no julgamento do caso Colina. Jorge é baixinho - 1,52, conforme ele - com barba curta, e com a cara meio avermelhado. Estava com ar entristecido, que dado as circunstâncias, é compreensível.

O julgamento começou com Jorge contando seu versão dos fatos. Um vizinho tinha informado que foi Zeca, que tinha fama de ladrão e várias passagens pelo Febem, que tinha assaltado a casa da filha do Jorge, e Jorge ainda disse que Zeca o chamou de "trouxão". No dia do crime, Zeca - que tinha 1,80 - no meio da rua, exigiu o celular de Jorge sendo negado, levantou a camisa, como quem sacaria arma, e Jorge, para se defender, deferiu três tiros.

Que foi ele que matou Zeca, ele não negou.

O juiz perguntou ao Jorge se uma arma realmente foi encontrado com Zeca, e o réu "reservou-se a não responder".

O defensor tentou estabelecer que o réu era um "cidadão de bem", com 24 anos em Taquara, no seu emprego atual um ano e oito meses, e algo que o defensor enfatizou como se fosse um atestado cabal de bom comportamento, "de carteira assinada".

E, ainda, o pai do Zeca teria pregado em frente da casa de Jorge, um sarrafo com uma tira da bermuda do falecido, que presumo seja alguma macumba.

Dra. Lisiane lê o processo

O interrogatório inicial deixou a nítida impressão de um homem, não dos ricos, mas trabalhador, que defendeu seus. Porém, Dra. Lisiane tirou uma outra história dos documentos do processo.

Começou explicando a diferença entre dolo e culpa - algo que já expliquei várias vezes para gringos, no caso do Gol 1907 - e explicou bem. Explicou os deveres do juri, ao que vamos voltar no final.

Pequenos furtos

Zeca Diabo tinha sim a fama de ladrão, Dra. Lisiane diz, mas de pequenos furtos. Subtraia objetos, sempre sem violência. Assaltava casas talvez, mas não pessoas, e se ainda que tinha sim passagens pelo Febem, não tinha fama de violento ou perigosa.

No dia da sua morte, Zeca tinha passado um tempo no bar em frente do campo de futebol. Conforme duas testemunhas, estava bebendo um refrigerante de dois litros. O exame do sangue dele não encontrou nem álcool nem drogas.

Jorge era conhecido do dono do bar, tinha almoçado lá aquele dia com ele, e ajudava no bar. Foi ele que serviu o Pepsi-Cola, seu último refrigerante, para Zeca Diabo, e alguém estranhou que Jorge perguntou três vezes, "Tá gelado?"

Um outro Jorge ...

Dra. Lisiane mostrou um outro Jorge: viciado em bebida alcoólico, violento quando bebe, e que costumava andar armado. E também com passagens pela polícia (estou surpresa que ela poderia falar de coisas nunca comprovados em frente do juri), incluindo uma condenação por recepção, um crime não tão diferente de furto. E naquele tarde fatal enquanto Zeca Diabo estava bebendo refrigerante, Jorge tomava cerveja. E conforme testemunhas, fazia olho feio para Zeca.

... e várias outras versões

A versão do crime no inquérito também foi diferente - realmente, Jorge tinha contado varias versões antes, inclusive de que a arma era de Zeca (1,80) e que Jorge (1,52) tinha a tirado dele.

O que a autopsia mostrou

Zeca Diabo levou três tiros: um no braço, e duas de costas. Dra. Lisiane mostrou no seu próprio corpo onde as balas entraram, uma na altura da 19ª costela, quase no ombro.

Conforme testemunhas, quando Zeca saiu do campo de futebol, Jorge o segui de bicicleta, e falou "Tu não vai roubar de mais ninguém". O primeiro tiro pegou Zeca no braço, e ele correu para o campo de futebol. Os outros tiros o pegou de costas, e caiu uns 15 metros da concha, pedindo socorro. Mas ninguém o ajudou.

Assim morreu Ezequiel Sílvio dos Santos, "Zeca Diabo", brasileiro, 20 anos, num campo de futebol no final de um tarde de verão.

O recado do juri

O juri, Dra. Lisiane falou, está julgando não o réu, mais o crime. "Há cada vez mais homicídios em Taquara, porque gente ache que nada vai acontecer mesmo." Taquara está em terceiro lugar em homicídios. Pessoas pode achar que a vítima "não prestava mesmo", "deixe para lá", "estamos em 2009, e aconteceu em 2003."

Não, falou Dra. Lisiane. "Não é Jorge que pode resolver se mate ou não mate. ... Ele fica impune, é a juri falando que pode matar quem quiser."

"O Estado tem que dar uma resposta para um crime. ... É crime, e tem que responder. Tem uma característica de prevenção. ... A decisão e a pena tem repercussão lá fora."

E o defensor

Não fiquei para a fala do defensor, porque tinha outros compromissos. Injusto, então, criticar o que ouvi do que ele falou, quer poderia ter mudando em tom do começo - espero que mudou.

Citando nomes

Nem sei se Jorge foi condenado ou não, então não coloco seu nome. Mas colocou o nome do "Zeca Diabo" porque depois de seis anos, talvez sumiu até do túmulo dele. Pode não ter sido um cidadão dos melhores, mas com 20 anos, tinha tempo para se endireitar. Deveria ter tido tempo. Com certeza não mereceu morrer como morreu. Dra. Lisiane, pelo que vi, tratou sua memória com dignidade.

Talvez se alguém teria tratada a vida dela com o mesmo carinho que Dra. Lisiane tratou sua morte, seu destino teria sido outro.

O recado da Dra. Lisiane

Concordo plenamente com o redado de Dra. Lisiane, de que a impunidade dá o recado que pode matar quem quiser. E só porque acusou a vítima de um crime, não quer dizer que pode praticar qualquer crime contra ela.

A teoria é bonita. Mas na prática, funciona? O Estado defende quem sofre furto, quem sofre ameaça, quem quer viver em paz e ter seus diretos respeitados? Especialmente se estes estão sendo agredidos por alguém que os acusou de crime?

O recado do Fórum de Taquara

Lamento dizer, mas me parece que o recado da Dra. Lisiane é dirigido a um mundo ideal, e não ao mundo englobado pela comarca de Taquara.

A Dra. Lisiane está certo. Mas quando a polícia e o Fórum faz vistas grossas para alguém que, armado, faz repetidas ameaças de morte, o que pensar? Quando um tentativa de incéndio criminoso, que bem que poderia ter matado duas senhoras indefesas, não recebe uma visita sequer da polícia, o que dizer? Quando as vítimas, levando suas queixas, são destratadas como se fossem os criminosos, o que aconselhar?

Para alguém que está sendo aterrorizado por um gangue, um gangue de pessoas que cada dia ficam mais desequilibradas, para alguém aguardando para que um autoridade, qualquer autoridade, desse uma basta, mostrasse que a lei é para todos, como eu posso explicar que nada acontece porque ... faz três semanas o caso “esta aguardando juntada”.

Sim, no Fórum de Taquara leva três semanas fazer dois furos num papel, e com cada um destes vinte e um dias e noites, aumenta a chance que um bandido de identidade conhecido e ficha criminal notória faria dois furos em alguém.

Mas no Fórum de Taquara leva três semanas fazer dois furos num papel.

Que esperança posso dar? "Fique fria, porque se ele mate você e sua familia, como ele abertamente ameaça fazer, quando vocês está seis anos na cova, a Dra. Lisiane vai comover o Juri"?

Se fosse na terra da lei ...

O recado da Dra. Lisiane vale nums terra da lei, onde os criminosos temem que haverá consequëncias. Onde quando alguém branda uma arma e diz que vai matar, é detido antes que pode agir. Onde alguém que constroi uma cancela numa estrada pública e passa a determinar quem pode ir ou não para sua própria casa, recebe uma visita de um trator amarelo, e não permissão de continuar assim por mais dois meses.

Veja ao lado. Há uma longa lista de pedidos para as autoridades de Taquara, à pólicia ou ao Fórum, para que fazem alguma coisa, mínima que seja, contra as flagrantes violações da lei e da Constituição pelo gangue que tomou conta da Colina do Sol.

É demais esperar que alguém não seja repetidamente ameaçado de morte por um criminoso notório empunhando arma? É demais esperar que alguém pode ir para sua própria casa, ou levar para lá quem quiser, ou contratar quem quiser para lá trabalhar?

De quem deve zelar pela lei e pela ordem, receberem somente a inércia, a demora, e o desdém. Pediram que o gangue fosse dado um cartão vermelho, e a inação lhe deu uma carta braca.

O recado da Dra. Lisiane é para um mundo ideal. Não é para este mundo aqui, na comarca de Taquara.

sábado, 18 de julho de 2009

E o sol se põe

(c)Charles Ferguson

O Clube Naturista Colina do Sol some no horizonte, depois um longo crepúsculo.

Na calma da noite, aparecem as estrelas. E a esperança de um novo dia.

Para explicar o que quero dizer, preciso abordar os crimes cometidos por uma corja de malfeitores, que mais ou menos coincide com a diretoria do clube. Mas começo frisando que a diretoria não é o clube. Os estelionatários, os perjuros e seus capangas não são o naturismo. Há muitos sócios que não compactuam com os crimes da diretoria. Uns tem medo mas aguentam, outros simplesmente fizeram as malas e partiram.

Celso Rossi e a corja que fazia seu coro estão sendo postos para fora como conseqüência de calotes antigos, devido ao trabalho da grande Dra. Carmen Luzia Fagundes. E não fosse isso, mais cedo ou mais tarde, de qualquer forma o CNCS perderia todos seus bens para indenizar as vítimas das falsas denúncias com que compactuou. Antes e depois das prisões o CNCS foi cúmplice dos acusadores, vários dos quais faziam parte da diretoria. O estresse da perseguição implacável do CNCS foi a causa da morte de Nedy de Fátima Pinheiro Fedrigo - algo imperdoável, e irremediável.

Tudo que o CNCS possui ou possuía é pouco em comparação com o estrago por ele provocado, e teria sido perdido para compensar as vítimas ainda vivas. Mas este mês esta possibilidade foi bloqueada, pois as terras foram tomadas para indenização de outrem.

O rol dos inocentes

A questão agora é o que será feito delas. É uma questão ainda sem resposta.

Há muitos inocentes que sofreram nesta história. Claro que há as vítimas das falsas acusações. Mas há outros. Dos que trabalharam para restabelecer a verdade há Silvio Levy, que há quase cinco anos comprou os direitos do Celso Rossi na Colina e entregou parte deles ao próprio clube, na tentativa de libertá-lo da hegemonia estranguladora do fundador. Silvio gastou muito em prol do sonho que a Colina do Sol já foi. Em troca de sua benesse, perdeu seu investimento e ficou na mira da corja. Foi processado devido às representações dos dirigentes da Colina, eles próprios incentivados pela promotora Dra. Natalia Cagliari, conforme comprova o próprio processo. Fritz Louderback conta que no dia em que foi preso um dos policias alardeou que Silvio também ia ser preso pelos mesmos crimes, e o delegado Juliano Brasil Ferreira logo espalhou para a mídia que um “professor da Universidade de Berkeley” integrava a “rede internacional” de pedofilia que ele estava combatendo. O que só mostra como a “investigação” do ilustre delegado consistiu apenas em repetir as acusações que saíram de dentro da Colina, pois Silvio, apesar de matemático e de morar em Berkeley, nunca foi professor da universidade, como saberia qualquer um que o buscasse no google.

Há Cristiano Fedrigo, que perdeu sua mãe Nedy e dois anos de seus estudos. Sem contar que teve seu nome - aliás ótimo nome, pois tinha fama já conquistada - enlameado, sofrendo a indignidade de ser exposto de cueca em rede nacional de TV como “vítima menor de abuso sexual”. (Tinha na verdade 20 anos e nunca sofreu abuso nenhum.)

São estas algumas das pessoas que conheci nesta aventura, e minha vida se enriqueceu em tê-los conhecido. Só lamento que meu convívio com Nedy tenham sido tão curto.

Há outros inocentes que sofreram, embora não fossem alvejados diretamente. Nesta hora, é bom lembrar deles.

Há o BRDE, o banco público que emprestou o dinheiro do contribuinte para o hotel inacabado. Há o americano Dana Wayne Harbour, que perdeu as economias de uma vida inteira e afinal a própria vida dentro da Colina. Seu assassinato ainda não foi esclarecido. Talvez quando o “diretor de disciplina” do CNCS não estiver mais presente, aqueles que têm pistas sobre o crime perderão o medo e dirão o que sabem.

Há também os sócios, os residentes e donos de casas na Colina que, com o CNCS varrido de Morro da Pedra, perderam seu dinheiro.

E há Taquara.

A cidade de Taquara tinha a Colina do Sol como referência nacional. A comunidade naturista durante anos deu um retorno publicitário, mas nunca com o devido destaque para a cidade, e nunca deu o devido retorno comercial nem financeiro ao município que a acolheu e até se orgulhava dela.

O CNCS sempre desprezou Morro da Pedra, até proibindo que os residentes locais se associassem. Mas o desprezo e o desrespeito para com o município são também claros.

Já mostramos como Celso Rossi expressou essa atitude soberba na sua última manifestação no processo trabalhista, logo antes de seu advogado formalmente renunciar a causa e o cliente:

O Centro Naturista Colina do Sol ... nesta cidade com mais de cem habitações ... é uma pequena cidade ... propriedade do CNCS - Clube Naturista Colina do Sol, entidade com autonomia política ...

Ainda há poucos meses, os guardas da Colina barraram na porteira - erguida em estrada pública! - os funcionários da prefeitura que foram fiscalizar o hotel, cuja abertura tinha sido noticiada na Internet. O hotel não somente carece de alvará, mas semana retrasada me informaram na Prefeitura que segundo os registros da cidade tudo lá esta “sob construção”. Nada está regularizado, nada tem habite-se.

A Colina age realmente como se tivesse “autonomia política”. O que surpreende é que por tantos anos ficou impune.

Esse empreendimento poderia, e deveria, trazer turistas, comércio, impostos, renda e fama a Taquara, da mesma maneira que poderia e deveria trazer emprego e vantagens à vizinhança imediata de Morro da Pedra.

O peso da responsabilidade

Fritz Louderback, chegado em Morro da Pedra com boa situação econômica, ajudou seus vizinhos. Muitos da Colina acharam logo que ali estava apenas um otário a ser explorado. Quando ele passou a ajudar as famílias mais humildes da vizinhança, a corja ficou ressentida, e depois conspirou para se apoderar dos seus bens com as falsas acusações de pedofilia, livrando-se também de pagar o dinheiro que pediram emprestado dele.

A promotora Dra. Natalia Cagliari achou que a generosidade do Fritz só poderiam ser em troca de algo vil, e que os habitantes de Morro da Pedra, não tendo dinheiro, também não podiam ter honra.

Mas Fritz estava agindo conforme o código cristão de moralidade universal: faça aos outros como quer lhe façam. Quem tem recursos tem obrigações. Fritz Louderback, vendo as crianças de Morro da Pedra desperdiçarem seu futuro, quando uma pequena quantia bem aplicada poderia abrir-lhes um leque de oportunidades, resolveu agir. Silvio Levy investiu pesado para colocar a Colina em condições de ajudar Fritz em sua ação social. Cristiano Fedrigo desde muito jovem agiu a favor dos ainda mais pobres. Eu, vendo de longe uma caça às bruxas, e sabendo que ninguém estaria mais bem preparado do que eu para agir, fiz o que pude, ainda que no começo não conhecesse ninguém da Colina, nem de Taquara, nem de Morro da Pedra.

O grande pioneiro da luta contra o racismo nos EUA, o reverendo Martin Luther King, disse uma vez que a maior tragédia não é “o clamor estridente dos maus, mas o espantoso silêncio dos bons”. O clamor dos maus não faltou neste caso: a violência do “diretor de disciplina” da Colina, com suas armas de fogo ilegais; a corrupção e a desonestidade dos diregentes do CNCS; os policiais que forjaram provas e seviciaram menores para obter falsos depoimentos; os repórteres preguiçosos e sem ética que divulgaram as mentiras mais extravagantes e nunca se preocuparam em questionar os absurdos, cotejar com os fatos nem ouvir o outro lado. E talvez pior de tudo a promotora Dra. Natália Cagliari, cuja atitude no começo talvez pudesse ser excesso de zelo ou trágica falta de critério, mas atualmente só se explica como algo muito mais sinistro que mera incompetência -- como aliás o indica sua amizade pessoal e seu contato com os acusadores, num claro conflito de interesse.

O silêncio dos bons também foi espantoso, mas houve exceções, como Cristiano e os pais das crianças, que preferiram ser denunciados pelo Ministério Público do que prestar falso testemunho. A esses poucos bons, que começaram apenas com a cara e a coragem, gradualmente juntamo-nos muitos outros a quebrar o silêncio: em Morro da Pedra, em Taquara, em Porto Alegre, em São Paulo, em Brasília, na Califórnia, e ainda mais longe. A batalha não está ganha, mas a maré sem dúvida virou e continuaremos enfrentando o clamor estridente dos maus com a fala da verdade e o amor pela justiça.

O sol também nasce

Há tempo de tempo de derrubar, e tempo de edificar; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de rasgar, e tempo de coser. A responsabilidade exige que estejamos presentes também na hora de edificar, de costurar, de plantar.

A Colina do Sol nunca foi gerida como um negócio viável. Era uma negociata, uma maneira de iludir “investidores” que entregavam seu dinheiro ao Celso Rossi em troca de um belo título, elegantemente impresso em papel beige, cujo valor só faz declinar há anos e anos. A venda de “concessões” também servia para encaminhar ao fundador do CNCS quantia às vezes muito maior que o concessionário jamais conseguiria angariar. Era um modelo em que a hora da safra sempre vinha antes da hora de plantar. Não poderia dar certo, e não deu.

Seria viável haver outra vez uma comunidade naturista no local onde houve o Clube Naturista Colina do Sol? Plantando, e aguardando, haverá safra?

Há dificuldades, e não são poucas. A reputação da Colina, que há sete ou oito anos era o que ela tinha de mais valioso, já vinha decaindo há tempos, ainda antes que o assassinato do Wayne e as acusações de pedofilia a arrasassem de vez. Metade das casas são inabitáveis e até irreparáveis; o lago está cheio de lama; o valor econômico do hotel talvez nem justifique o custo de acabar de construi-lo (e já consumiu tanto dinheiro!); e mesmo se todos estes problemas se resolverem, o clima local é menos propício ao naturismo que o de muitas outras áreas do Brasil.

Mas há muitos fatores positivos também. Para começar mencionemos o povo de Morro da Pedra, que não se dobrou às ameaças da polícia nem da promotora, e que está em harmonia com aqueles que querem construir nas cinzas da Colina aquilo que a Colina se declarava ser.

Mencionemos igualmente Taquara, que acolheu e apoiou o naturismo de braços abertos, às vezes como um hábito excêntrico mas nunca com hostilidade. Taquara me impressionou e até me encantou em minhas muitas visitas nesse ano e meio. Mencionemos o bom nível de educação, as oportunidades de turismo, a proximidade de Porto Alegre, e a parte da infra-estrutura da Colina que pode ser salva do cupim e do mofo.

Estamos estudando como salvar aquilo que era a Colina. Financeiramente, já ficou claro que seria mais viável montar algo igual no nordeste, mais próximo da Europa e da América do Norte, e atraente aos brasileiros doze meses do ano.

Ainda assim, estamos tentando achar o caminho, fazer um plano, levantar o dinheiro para executá-lo. Não será fácil, mas também não foi fácil enfrentar os abusos das autoridades e o ódio da gangue da Colina. Agora que explodiu a bomba, ainda que não tenha sido plantada por nós, não queremos só deixar as ruínas para o bom povo de Morro da Pedra limpar. Queremos reconstruir juntos.

O Sol da Colina se pôs num mar de tinta vermelha. Com certeza, não será possível compensar todos que “investiram” na Colina do Sol. E nem é esse nosso dever. Arriscamos nossos bens, nosso bons nomes (Silvio e eu fomos denunciados e a promotora tentou achar algo para denunciar Cristiano), e até nossas vidas (lembrem-se do sina do Wayne e da Nedy). Não queremos criticar aqueles que ficaram só assistindo, mas também não temos a obrigação de salvar-los da sua perda meramente financeira. Quem deve compensá-los é Celso Rossi e a diretoria do CNCS.

O passado não podemos consertar. Mas criar um novo futuro talvez seja possível. Acordar do pesadelo para um novo dia, fazer brotar naquele pedaço de terra uma realidade mais próxima do antigo sonho, algo que traria para Morro da Pedra e Taquara os benefícios sempre prometidos, e para os naturistas, a terra prometida. Havendo um caminho, encontraremos. Havendo dinheiro, seguiremos.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Novo consultório do Dr. André Herdy

Dr. André Herdy já abriu seu novo consultório no centro de Taquara. Fica no mesmo prédio que abriga a Biblioteca Municipal e a LAN house em que costumo trabalhar quando estou em Taquara.

O consultório já estava pronto em maio. Foi Cleci que encontrou nos classificados uma dentista acompanhando o marido para o exterior, que estava vendendo suas instalações recém-inauguradas. O consultório é amplo, limpo, arejado, e moderno.

Tem outra coisa que destaca o consultório dos outros: tem alvará e está em conformidade com todos os códigos municipais. Dr. André me explicou que como ele está visado pelo Fórum de Taquara, ele precisa ter tudo rigorosamente em ordem, ainda que seja o único dentista na cidade que assim opera. Passei lá na minha última visita para Taquara, e encontrei com ele Bruno, o fiscal da prefeitura, que já conheci de outras carnavais.

Cleci está ajudando no consultório, e está mostrando o ânimo que entendo que era dela que antigamente. O carro quebrou, e sua resposta não foi de reclamar: pegou o ônibus e utilizou a oportunidade para distribuir folhetins do consultório.

Freguesia entre conhecidos

Dr. André está tentando construir uma freguesia em Taquara. Seria uma falta de ética tentar aliciar seus clientes do tempo em que ele trabalhava com Dra. Rosane, ele me explicou, ainda que nada impede que ele aceitasse os que lhe procurasse. Folhetas são uma das maneiras que ele utilize.

E as crianças ajudados pelo ONG New Faces estão vindo para o consultório de Dr. André, que está providenciando tratamento gratuito.

Outro grupo de onde estão vindo clientes são da Brigada Militar. O quartel fica ao lado da clínica onde trabalhava, e muitos já o conhecia e estavam bem contentes com seu tratamento. Também estão vindo pessoal do SUSEPE. Quer dizer, guardas do presídio estadual de Taquara, onde Dr. André ficou uns meses.

Dr. André me conta também, que no pequeno prédio onde ele e a Cleci alugaram um apartamento, um dos seus vizinhos agora é o vice-diretor do presidio. Que Dr. André considere um amigo. É alguém que já sabia que os acusados do caso Colina do Sol eram inocentes (a história não parava em pé) antes mesmo de saber que Dr. André fosse um deles.

A prefeitura de Taquara tem um ônibus equipado como ambulatório dentário, que sempre estava disponível para ir ao presídio estadual, mas nunca tinha ninguém que aceitava trabalhar lá. Dr. André está disposto. Agora há alguém para cuidar dos dentes dos detentos.

O medida de um homem

Como que é que Dr. André, injustamente preso durante 13 meses, pode agora dar bom-dia para o vice-diretor do presidio? Como que é que os mesmos homens que o mantiverem encarcerado podem se sentar na sua cadeira, deixar que ele aplica anestesia, e ouvir o barulho daquele máquina? Como ele poderia voltar tranqüilamente para um lugar em que com certeza passou umas das piores horas da sua vida?

Há no mundo moderno - realmente, sempre houve - uma tendência de julgar pessoas pelos seus posses, pela sua posição, pelo seu prestígio. Para medir o valor de um homem, é preciso ver como ele fica quando tudo isso é tirado dele, e resta somente o homem essencial.

Preso, André Herdy foi pesado por o que ele é, tanto por aqueles que estavam fora dos grades, e aqueles que estavam dentro. André foi sustentado pelo forte fé religioso, pela ciência da sua inocência, pelo amor da sua família. Visitei ele no dezembro do ano passado, e a visita foi breve - estava quase na hora do ensaio do coro dos presos que ele tinha organizado ai dentro, que estavam preparando para o concerto de natal, quando os filhos dos presos iam visitar.

Como um cambista de antigamente testava uma moeda - pesado na balança, batido para ouvir o som, e com ácido, André Herdy foi testado. E passou. É de metal puro, moeda que qualquer um aceite.

sábado, 25 de abril de 2009

As pedreiras de Morro da Pedra

O nome de Morro da Pedra vem de uma pedra no Rio dos Sinos que era uma marca de navegação fluvial. Mas a economia da comunidade vem da exploração da pedra mais típica do local, a pedra grês, um arenito marrom que pavimenta as calçadas de Taquara, e forma as alicerces das casas.

Serve também para construir os túmulos do cemitério da comunidade, onde os trabalhadores chegam na meia idade.

Tirada em camadas

Arenito é formado de areia que foi depositado em camadas, e sai da pedreira do mesma maneira em que foi formado. Para levantar uma camada de pedra, são cortados canaletas, que marcam uma área grande, de umas quatro ou cinco metros por lado, até a profundidade desejada. Para cortar as canaletas o canaleiro use um martelo elétrico ou pneumático. Depois ferros são batidos no horizontal, e a camada separa.

Na pedreira nos fotos, a camada é somente um pouco fora do nível. Muitos vezes tem um aclive, de dez graus ou até mais. Enquanto o arenito foi formado em camadas nivelados, a pedra é mais antigo que os morros, cujo levantamento tirou a pedra do atitude original.

A camada separada é recortada em chapas de umas 15 ou 20 cm de espessura para para calçados, lajes, etc., ou em blocos para alicerces, muros, e paredes, estes sendo geralmente de altura e largura de um bloco de concreto, mas umas duas vezes mais comprido. O cortador marca as linhas de corte com uma serra elétrica ou frisadeira, e o corte é completado com talhadeiras (veja foto ao lado).

A frisadeira alivia o trabalho braçal, mas a poeira que levanta entope as pulmões dos peões, que trabalham sem respiradores ou outros equipamentos de segurança. O respiração da poeira leva para o dor constante no peito, para a aposentadoria precoce, e para a alcoolismo, como maneira de lidar com o dor. As pedreiras são a vida das famílias, e o morte dos pais, e os jovens do Morro da Pedra começam cedo nelas.

Uma vez cortadas, as pedras pesadas são colocadas a mão em caminhões, que deixam Morro da Pedra no final da tarde com o produto, e com a mão-de-obra. Em uma hora, passei meia-dúzia de caminhões com as carrocerias lotados com pedra gres cortada, muitos com os peões sentados em cima da carga, uma fileira para cada lado do caminhão. O trabalho de carregar as pedras, e especialmente de tirar os cacos que sobram, muitos vezes é de crianças.

O trabalho infantil

O trabalho infantil é bastante comum nas pedreiras. Um jovem que começou aos nove anos conta que, "Agora não tem mais crianças de nove anos trabalhando, mas tem de 10, 11, e 12. Sempre tem. Treze anos é mais comum." As crianças ganham entre R$10 e R$15 por uma turno de trabalho, ou de manha, ou de tarde.

Um pai defendeu a prática, dizendo "Melhor trabalhando do que na rua."

O trabalho das criança é geralmente de tirar os cacos, e coloca-los no caminhão. Mas carregam pedras mais pesadas também, que é ruim para as costas. Um adolescente falou que todos que trabalham nas pedreiras tem problemas de costas - mas os que não lá trabalham podem ter também.

O poder público é ausente das pedreiras. "Nunca vi ninguém implicando com menor trabalhando, nunca vi o Conselho Tutelar," disse um jovem, que "trabalho porque quero, uso o dinheiro para comprar roupa." Outro jovem disse que até a "escola não incomoda, sabe que tem que ajudar em casa."

Um morador que gerencia uma pedreira disse que se o trabalho infantil diminuiu, é por causa do crise do setor de calçados, outro fonte de emprego na região. Com as fábricas de sapatos parados ou produzindo pouco, há mão-de-obra adulto disponível. Quando a indústria recuperar, o trabalho infantil aumentará outro vez?

O fim de uma pedreira

Enquanto umas das pedreiras são "seculares", e outras definidas com mais precisão como produzinso já mais de vinte ou trinta anos, é comum que uma pedreira seja fechada. Às vezes a pedra se esgota: começa apresentar muitas manchas e rachaduras, e é abandonada. Outro motivo moderno de fechamento é interdição pela IBAMA. Várias das pedreiras estão como todos as autorizações em dia, mas muitas não. A fiscalização é periódicao: moralizações ocasionais, separadas por longos intervalos de esquecimento.

Se uma outra pedreira foi aberto próximo aquela que fechou, as camadas indicias de terra e pedra mole, e os eventuais cacos, podem ser usados para encher o buraco antigo. Jairinho, morador antigo, afirma que "o morro não acaba", que o mato se regenera facilmente. Veja foto ao lado.

Umas pedreiras abandonadas anos atrás na época do corte manual podem ser reabertas. Com os ferramentos elétricos ou pneumáticos, podem ser rentáveis de novo.

Umas pedreiras enchem com água, e viram piscinas das crianças locais no verão. Esta da foto é do bairro de Pega-Fogo, é foi descrita por uma mãe como "uma coisa horrenda, com profundidade de 14 metros, e o fundo cheio de blocos de pedra e ferramentos abandonados." Os moleques pulam da borda.

As outras pedras

Além da pedra grés, no Morro da Pedra é explorado pedra ferro e saibreira. As duas são tiradas com uso de dinamite. A pedra ferro é bastante densa, e como a sabreira (que parece mais saibro do que pedra) é usado em pavimentação. As normas da construção da Colina do Sol, por algum motivo, exigem na construção de casas o uso da pedra ferro e não da arenito mais típica de Morro da Pedra.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O Barracão de Morro da Pedra

Se ouve muito do Barracão em Morro da Pedra. É lugar de jogo de futebol, de festa de padroeira, casamento, e na sala do subsolo, a escola de reforço de New Faces, a ONG de Fritz Louderback. Para entender o caso, é essencial visitar o Barracão. Então vamos lá.

O Barracão é uma construção de alvenaria, com telhado de zinco. Fica num terreno em desnível, reto ao chão no lado esquerda (sul) e com um subsolo no lado direta, que fica uns 20 metros da igreja. Dentro da estrutura, há piso de taco de madeira, pintado para futebol de salão. O campo de futebol é envolto com um rede – laterais, atrás dos gols, finais, teto. Os paredes de dentro tem a pintura dos paredes em boas condições, um quase-branco, com uma faixa de um metro de bege no pé.

No lado sul, o piso é de cerâmica, e há no meio da parede, um balcão tipo bar enorme. Em cada lado, há janelas para a cozinha, do tipo usada para passar comida de um lado para outro. No lado esquerda, em baixo de cobertores, há um "steam table” – um daqueles carrões usada para servir comida quente num refeitório. Atrás dele, uma quadra de luz, que parece novo e moderno. No lado direto, há um pequena mesa de snooker, menor que tamanho oficial. Atrás disso, os sanitários. Pelas janelas da cozinha, dá para ler duas notícias: "A partir das 2:00 hoje – jogo", e "Não vendo cerveja fiado". Uma quadra branca permite agendar uso da quadro, o preço sendo R$15,00/hora."

Fernando e sua namorada estão almoçado frango assado quando chego ao Barracão. Fernando mostra o lugar e explica seu funcionamento. Crianças jogam futebol a tarde, adultos não. O Barracão serve para casamentos, festas de 15 anos, festas da paróquia. Um exemplo é a Festa dos Motoqueiros, em que uns 400 motos desfilam desde Santa Cristina do Pinhal, até a Barracão onde termina em festa. Acontece no segundo domingo de dezembro, e no 9 de dezembro de 2007, houve almoço para 350 pessoas.

A Sala de Aula

Atras do outro gol, há um palco, e ao lado uma escada desce, tão íngreme que parece uma ladeira de marinheiro. Mas não é a entrada principal da sala em baixo. Devido ao declive, o piso fica a nível do chão, e tem uma porta virado para a igreja, uns 15 metros distante, e pequenas janelas no mesmo parede deixam a sala bem iluminada. É limpa, recém-pintada, e claramente uma sala de aula. Poucas cadeiras, sem duas iguais, estão encostadas aos paredes.

No parede esquerda, oposta as janelas, metade do parede é branco. Um metro acima do chão há uma série de tomadas elétricas, tipo informática com três buracos incluindo terra. A tubulação é embutido. Além das tomadas há um quadro de anúncios quase na canto. Nele, somente um cruz de papel dobrado, com frases de catequese escritas com mão cuidadosa.

No parede do fundo, há uma quadra-branca, com uma quadra com horário de aulas:

2ª Educação Física Prof. Regine
3ª Português Profa. Ana Paulo.
História e Geografia Prof. Daniel
4ª Inglês Prof. Rodrigo
5ª Ciência/Matemática Prof. Márcia
6ª Artes Prof. André
Enfiadas na borda da quadra branca, há umas cartões-postais de Europe. Virando os cartões, são de “Alastair”, e endereçados para Fritz Louderback, um para “Kids Club, Fritz Louderback”.

Fernado explica como funcionou a escola, "Os professores que deram as aulas vem de várias cidades da região, Parobé, Taquara, Igrejinha. A escola Hiatus no Taquara coordenava.

"As crianças estão sentindo muito falta. Parou as aulas, parou as aulas de inglês."

Fritz fez a reforma da sala de aula. Ele que mandou colocar fiação para os computadores. As computadores não chegaram a ser colocados.

A imprensa não investigativa

Conforme Fernando, umas seis pessoas vierem para conhecer a sala de aula, para divulgar o trabalho, "antes". "E uns vierem escondidos, para bisbilhotar." "Nenhum repórter veio ver a sala de aula depois que Fritz foi preso."