Mostrando postagens com marcador pedreiras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pedreiras. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sirineu Pedro da Silva, 1965-2012

Sirineu Pedro da Silva morreu segunda-feria de manhã depois de um mês de internação no Hospital Conceição em Porto Alegre, de câncer. Ele deixa sua esposa Dinamar, oito filhos, e netos. O enterro será hoje as 10:00 no cemitério de Morro da Pedra.

Eu vi Sirineu pela última vez em novembro. Foi ele, realmente, que me viu, em frente da Cafeteria Taquara. Subi com ele para o Hospital Bom Jesus, onde um neto estava internado, e conversamos sentados em frente do hospital.

Eu não sabia que ele estava doente. Muitos dos trabalhadores das pedreiras de Morro da Pedra sofrem de pulmão, devido à poeira criado pelas serras elétricos, e ciente disso Sirineu tinha moderado seus hábitos já faz uns anos. Mas seu irmão Edegar falou para Cleci, que a moléstia começou no cérebro, chegando somente depois nos pulmões. Tirando sua vida em etapas.

Relato de Dinamar

Conversei faz duas semanas com Dinamar, que atendeu o celular de Sirineu. Douglas tinha ouvido de Morro da Pedra que Sirineu estava no hospital, e de California o recado chegou aqui. A casa de Sirineu tem poucos cômodos e muitos filhos, uns bastante pequenos. Ela disse, também para estes ouvidos, que era "uma infecção no pulmão, e algo mais", e que tinha entregado ele nas mãos de Deus.

Homem teimoso

Nestas horas, pensamos na natureza do homem. Da alma, para os de fé; o intelecto e a personalidade, para os que acreditam somente no parte corporal. Algo que ataca o cérebro vai reduzindo o homem.

Não entendi na hora tudo que a Dinamar falou em meias-palavras, para não assustar os pequenos. Disse que tinha alguém da família lá, todos os dias, "ainda que não há necessidade, eles o cuidam bem, o mantém confortável." Queira dizer, entendo agora, que ele não já não estava consciente do que passava.

Mas ainda assim, alimentado de sonda e sujeito a outras indignidades, precisavam manter-lo amarrado a cama. Se não, arrancava. Muito de Sirineu já não lá estava, mas o personalidade teimoso ficava. Ou se prefere, a alma.

Sirineu foi rico em filhos

Fritz Louderback lembre Sirineu

Eu tentei visitar a família de Sirineu sempre que passei pelo Morro da Pedra. A casa na Estrada da Grota, ao lado do maior das pedreiras da região, era passagem obrigatório. Uma manha, passei cedo, e acabaram de matar um porco. Na volta, a noite, estavam fervendo a banha: Sirineu tinha desmontado o porco por inteiro.

Mas Fritz conheceu Sirineu e sua família durante anos, em tempos bons, e o conheceu melhor do que eu. Pediu uma lembrança de Sirineu, que aqui traduzo:

 

Eu estava dirigindo meu caminhonete de volta do Dr. Everett, em Novo Hamburgo. Nedy, Cristiano, Roberto e Barbara estavam comigo. Nós tínhamos acabado de passar pelo centro de Morro da Pedra, viramos à direita para a Estrada da Grota, uma estrada que sobe um aclive íngreme e passa primeiro a casa de Siineu, e depois a maior pedreira de Morro da Pedra, chegando eventualmente à nossa casa.

Passando pela casa de Sirineu, havia cinco ou seis de seus filhos. Reconhecendo Cristiano em nosso caminhonete, eles começaram a saltar para cima e para baixo, gritando seu nome ... "Cristiano, Cristiano, Cristiano!". Eu não poderia deixar de parar para saber o que era aquele barulho. Bem, foi sobre futebol, os meninos queriam saber quando Cristiano e sua equipe iriam jogar novamente.

De repente apareceu um homem alto, bem cuidado, e bonito montando sua motocicleta preta e prateado ... a atenção dos meninos, não só desviou de Cristiano, mas sua excitação aumentou exponencialmente à medida que celebraram o retorno de seu pai, de um dia de trabalho na pedreira.

Daquele dia em diante eu pensei Sirineu primeiro como um pai forte, um homem que colocou sua família antes de si mesmo, um homem que, quando ele estava ao lado da sua esposa, orgulhosamente disse a todos que quisessem ouvir que os filhos eram dela para cuidar. Mas a realidade era que este casal foram uma equipe.

As pessoas podem ter enxergado eles como pobres, devido aos baixos salários que Sirineu recebeu das pedreiras, mas todos que conheciam Sirineu, sabiam que ele pensava de si como rico aos olhos de seu Deus, ele era um homem que, generosamente, espalhava a sua atenção e os frutos do seu trabalho, seu tempo e suas energias à sua prole de oito, e por esta oportunidade que ele sempre me disse que seu Deus o fez rico, pois para Sirineu sua família era tudo e isso fez dele uma inspiração para os seus vizinhos e da comunidade pelo qual todos sentirão sua falta!

E aqui na Califórnia, milhares de quilômetros de Morro da Pedra, são três pessoas que sempre sentirão a falta de seu amigo Sirineu: Barbara, Douglas e eu.

 

Sócio da Colina do Sol

O pai de Sirineu, Olívio da Silva, foi o dono do maior parte das terras onde agora fica a Colina do Sol. Terras agriculturais pobres, de pouco valor na época. Ele recebeu um título de Socio Patrimonial de Silvio Levy, para que seus filhos poderiam aproveitar a área de lazer. Foram sujeitos à aplicação seletiva de regras, de regras escritas especificamente para barrar os jovens de Morro da Pedra, e Sirineu foi barrado por voto - curiosamente, outros sócios denunciados ou até condenados por outros crimes não sofreram sanções - e depois, foi cobrado para custear as guardas que não permitiram seu acesso ao área de qual ele era formalmente um dos donos.

Mas estamos escrevendo não da corja da Colina, mas de Sirineu. Na minha última visita, ele em contou que tinha batido na sua porta um emissário da Colina, com uma conta de mais de mil reais, e um "termo de desistência" do título de sócio. Na sua maneira temerária, falou que ia conversar com eles somente no Fórum, com seu advogado. E os mandou às favas.

Recursou barganha

Conheci Sirineu porque é um dos acusados no caso Colina do Sol. Se não for isso, nunca teria visto o homem.

Conheci Sirineu, e conheci sua família, devido ao caso. Gostei bastante dos filhos dele, e julgar o caracter de um homem dos seus filhos, é mais certeiro do que julgar os filhos baseado no pai.

Resumindo uma vida a um incidente, pode ser uma injustiça. Mas também, sabemos do que um homem é feito não na hora em que tudo vai bem, mas na hora do aperto.

Sirineu Pedro da Silva foi, em muito, um homem simples. Criou oito filhos, e os criou bem. Creio que o orçamento da casa foi sempre apertado, mas adotou um sobrinho, pois o sobrinho precisava. Sabia reduzir um porco ao tudo que a gente encontra aqui na cidade embalado no supermercado, e mais um pouco.

Foi competente dentro do seu mundo, mas em 11 de dezembro de 2007, foi de repente posto num mundo maior. Não era somente a batalhão da policia, ou aquele pessoas de televisão aparecendo de repente neste lado da telhinha. As regras eram outras. Como Dinamar falou, "Me fizeram umas perguntas e dei respostas. Comprei a jornal e lá estavam outras perguntas e outras respostas. Mas lá estava meu nome." Como Alice atravessando o espelho, ele se encontrou num outro mundo. Sua casa humilde saiu na televisão, ele passou dois dias de 12 horas na delegacia em Porto Alegre.

Sem saber da doença de Sirineu, foi ele o primeiro dos pais do que escrevi, varrendo os 37 acusações absurdas que compõem o caso Colina do Sol. Como vimos, não há provas contra Sirineu. Nem indícios há, o que a promotora Dra. Natalia Cagliari usou como tal foi os laudos fajutas da falsa psiquiatra Dra. Heloisa Fischer Meyer, e os que os psiquiatras verdadeiros emitiram, alimentados com informações falsos pela polícia.

A mãe de duas das vítimas, Cleiton e Charles, foi enganada para assinar uma "representação". Seu pai não foi denunciado. Quando, sob tortura, um dos filhos acusou Fritz Louderback, o delegado disse que Isaías era também uma vítima, e não seria indiciada. Acusou o tortura na corregedoria, e foi indiciado e denunciado.

A barganha era claro: quem acusava, escapava de ser acusado. Sirineu poderia ter escapado de ser processado.

O preço, era fazer uma acusação falso contra um homem inocente, traindo um amigo.

Sirineu não fez a barganha. Do que conheci dele, duvidou que ele chegou a considerar. Há coisas que se faz por dinheiro, e coisas que não se faz por preço nenhuma. Há quem entende disso, e quem não entende.

Poucos de nós encontramos o hora de vamos ver, a hora em que podemos escolher entre pagar um preço altíssimo, ou fazer algo que não pode ser feito.

O delegado e a promotora acusaram Sirineu de vender seus filhos por dinheiro. Isso nada nós informa sobre o caracter de Sirineu, mas somente nós informa sobre os caracteres de drs. Juliano e Natália. Pois todos imaginam que os outros fariam, o que eles fariam no seu lugar.

Sirineu morreu. Não é nós dado escolher a hora e a maneira em que morremos, mas podemos escolher como vivemos. Sirineu era um bom pai da sua grande família, e um bom homem na sua pequena comunidade. Sem querer, sem escolher, foi empurrado para o meio de grandes eventos, e manteve seu compasso moral. Insistiu na verdade, e enfrentou a Justiça estadual. Enfrenta agora a Justiça divina. Não há duvido do julgamento.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sinais de prosperidade

Não é mais a única vistosa
Faz três anos e meio que estou visitando Taquara e Morro da Pedra. Nesta visita mais recente, a impressão que mais ficou, era de um aumento de prosperidade.

O hotel está cheio de segunda a sexta-feira; há semanas em que quarenta pessoas batem na porta e são encaminhadas para rivais, pois não há espaço na hospedaria. É o lugar preferido de quem vem a serviço, em Taquara ou até em cidades vizinhos: Sapiranga, Três Coroas, Parobé. São gente fazendo algo de útil: podando árvores na estrada para RS-020, assentando granito numa fachada. Lamento não ter cruzado com os técnicos montando um "cervejaduto" para a fábrica de Schincariol em Igrejinha. Queria ouvir mais.

Taquara, Morro da Pedra, e Colina do Sol

Recebi uma crítica do postagem anterior, sobre o crime da Cafeteria Taquara, perguntando "O que isso tem a ver com a Colina do Sol"?.

Tem tudo a ver. A Colina do Sol é parte do Morro da Pedra, de Taquara, e do Brasil. Compartilha os problemas de Taquara, e poderia compartilhar seus avanços. E vale notar, está sujeita aos regulamentos da cidade, e às leis do Brasil.

O crime da Cafeteria mostrou como a cidade é pequena: a vítima era parente de pessoas com quem lido, e a morte tinha ligação estreita com o Barracão, lugar central à sociedade de Morro da Pedra, e palco de muito do caso Colina do Sol.

Nos já examinamos aqui antes o senso de comunidade. No caso Colina do Sol, a prisão preventiva dos quatro acusados pelos condôminos da Colina do Sol foi baseado no "ordem pública" e a o "clamor da comunidade".

A Colina do Sol é somente um condomínio. Comunidade é Morro da Pedra, é Taquara. Escrevemos aqui sobre a comunidade, a comunidade real cujo legitimidade, e clamor, prevalecerá sobre os autores das falsas denúncias, a corja da Colina do Sol.

Prosperidade em Morro da Pedra

Foi mas de seis meses que eu não tinha visitado Morro da Pedra. Senti, em tudo parte, um ar de prosperidade, que não tinha notado antes.

Quando Dr. André e Cleci resolverem se retirar do recinto hostil da Colina do Sol, ele me falou que "só tinha uma opção" em Morro da Pedra, a casa de campo de uma juíza aposentada. E realmente, de longe, a casa era vistosa, destoante das casas mais simples do povo do lugar. Mas nesta última visita, procurei Cleci, que não estava, e uma das suas vizinhas apontou onde talvez ela estava. E notei que puxa, daí dava para ver várias casas bonitas e de bom gosto. Vendo elas por perto, noteis mais. Marino tinha adicionado uma alpendre à sua casa, e o pai de Cleiton atinha aumentado sua casa pela segunda vez. Muitas outras casas foram recém-pintadas.

A estrada está agora asfaltada de Santa Cristina para o leste. Meu ônibus não seguiu a estrada até RS020, então não sei se o asfalto chega, mas percorremos grande parte da comunidade. Contei cinco "casinhas de brincar" nos jardins de casas, quatro cor-de-rosa e uma amarela. Não algo de grande custo, mas algo que não seja de maneira alguma uma necessidade. Muito gente tem dinheiro para gastar em o que quer, e não em o que precisa.

Vi na viagem três reto-escavadoras, novas com tinta brilhando. O trabalho que não muitos anos seria feito por homens, pois mão-de-obra é barato, agora é feito por máquinas - pois mão-de-obra já não é tão barato assim. Ouvi de um dono de pedreira que um temor da fiscalização municipal (sobre qual já falamos este ano com Dra. Ximena) é que uns dos trabalhadores ganham mais de R$800 por semana "e não dá para registrar isso em carteira".

Tanto nos brinquedos das meninas pequenas quando os dos meninos crescidos, Morro da Pedra ostenta uma prosperidade que antes não tinha.

Sem miséria

Uma das alegações da polícia e da promotora era de que os jovens de Morro da Pedra faria qualquer coisa por uns trocados, devida a "miserabilidade em que vivia a vítima".

Na minha primeira visita a Taquara, enquanto comi churrasco com a família de Isaías, na sua chácara em Morro da Pedra, perguntei a eles si vivessem na miserabilidade. Riram da minha cara.

Fui sábado e domingo a Morro da Pedra. J. estava construindo um abrigo temporário no sábado, fazendo trabalho tamanho homem. O mais miúdo das "vitimas", ele agora tem 16 anos. No domingo, passei na casa de Sirineu, e encontrei sua esposa Dinamar e meia dúzia de filhos e netos, amontoadas no chão como um ninho de cachorrinhos. J. dormindo na sofá, pareceu bem mais jovem do que no dia anterior. A estrutura da casa está realmente em péssimas condições, mas as roupas dos meninos, como as tapetes que cobrem o piso da sala, estavam limpas.

Saúde

A família de Sirineu passou por um transtornou enquanto eu estava em Morro da Pedra. Um dos netos, de uns 8 anos, passou por cirurgia por apendicite. O único hospital de Taquara foi recentemente reativado, em cooperação com o hospital Mãe de Deus em Porto Alegre, e o menino se operou em Taquara em vez de num município vizinho. É o mesmo hospital onde Cleiton está fazendo estágio como técnico em radiologia.

O menino passa bem. O hospital deu aparência de limpo e organizado. Bastante gente para ser tratado, mas estavam sendo tratados mesmos. A mãe poderia ficar com o menino a noite, e os parentes revezavam durante o dia. Seu tio Régis, que recentemente fez 18 anos, ficou com ele durante grande parte do fim de semana.

Outro neto sofre de problema mais sério: o "sindrome de x frágil". Há medicamento por isso, que é caro, mas a família está conseguindo pagar, com ajuda de programas governamentais. Vi ele tomar o remedio em casa, Dinamar falando para ele que na fim de garrafa, é preciso jogar fora o aplicador e usar um novo. O menino está reagindo ao remédio, Dinamar disse, e que se continuar em tratamento aos 18 anos vai ter como ter uma vida independente.

Vai para uma escola especializada em Taquara duas vezes por semana, um dia pago pela família, outro pela Prefeitura. Há um processo na Vara de Infância de Taquara, para que a prefeitura pagasse a semana integral. Mas a vara tem muitos processos.

Enquanto isso, ele vai três dias por semana à escola Dona Leopoldina. Não aprende nada, mas socializa com as outras crianças. Quando tem um surto de raiva (acontece quando é contrariado) uma das professores o leva para o pátio, para andar para cima e para baixo, até que ele se acalma.

O poder público está chegando no Morro da Pedra, as vezes até para ajudar. O abandono, o lacuna que Fritz Louderback e New Faces começaram preencher, já não é mais total.

sábado, 14 de maio de 2011

Voltando a Taquara ...

Estou de volta em Taquara, que as vezes parece a cidade que o tempo esqueceu. Enquanto Gramado, Canela, Parobé, Igrejinha, outras cidades se emanciparam do município de Taquara, e crescerem, o antigo matriz ficou na glória do passado.

Houve mudanças, esta vez. O tempestade que varreu a festa de aniversário da cidade, também levou parte do telhado do hotel. A fachada ruiu, num dos restaurantes em que costumo almoçar, na rua principal.

Apromim

Outro dos marcos importantes do caso Colina do Sol, o orfanato Apromin, fechou em definitiva. Na minha primeira viagem a Taquara, visitei o orfanato para saber algo do que se tratava. Foi lá que Dr. André e sua mulher trabalhavam como voluntários - ele, quartas-feiras à tarde no consultório odontológico, e ela no berçário. Os gêmeos que iam adotar eram do Apromin, e o Moleque que Mente® era de lá também.

No relatório para o Ouvidor Nacional de Diretos Humanos, há minha minuta sobre o orfanato, batida aquela mesma tarde - um dia corrijo a gramática e posto aqui.

Velhice e infância no interior

Em outras cidades do interior, vi uma integração com a comunidade de instituições como asilo de velhos. Em vez de ser um lugar a parte, onde os menos favorecidos ou capazes poderiam ser esquecidos, eram parte de tudo. Em Serro, única das cidades históricas de Minas que não foi engolida pelo turismo comercial, um dos grandes eventos do ano é a congada - um ritual que envolve centenas de pessoas. O dono do hotel em que ficávamos hospedados apoiava a congada, matando seis bois e distribuindo a carne para os participantes, no pátio do hotel.

Em Serro, a congada passou pelas ruas principais - e parou e entrou no asilo, com um apresentação para os velhos, nada menos caprichoso do que feita na rua. O asilo, como a própria velhice, era parte da vida, e da comunidade.

Folheando um livro sobre a historia de Serro, num bar da rua principal, enquanto o Brasil foi eliminado da Copa de 2004, admirei as contas das cidade no século 18, quando o Distrito Diamantina fazia parte da comarca do Serro do Frio, os maiores despesas públicas era com música, e "enjeitados" - crianças abandonadas.

As crianças e os velhos que precisavam do apoio eram, e são, prioridades das comunidades do interior - realmente, de qualquer comunidade. A tendência moderna é de "professionalizar" tudo. O apoio aos menos favorecidos não é pela ação caridosa de cada um; o apoio às tradições é feito não com um boi retalhado no pátio do hotel, mais com "verbas" mordidos e corroídas por "profissionais" (que como a própria palavra disse, são os que vivem disso) antes de chegar aos destinatários.

Numa das travessas da rua principal de Taquara eu passava todo dia um lar de velhos. Na primeira viagem este ano, encontrei somente uma pilha de tijolos. Os velhos devem estar por aí, em alguma lugar mais institucional - e mais longe e menos visível.

E agora, o Apromim fechou também.

A Irmã e a assistente social

Eu gostei Apromim, e eu também gostei Irmã Natalina, que dirigia a instituição. Era palpável que o orfanato era dirigido com amor, e a dedicação da freira era indubitável.

Quem eu não vi, mas parece que me notaram, foi O Moleque que Mente® e a assistente social Cláudia de Cristo. Do que ouvi falar, Claudia de Cristo passou para a promotoria a mentira de que o Moleque tinha me visto antes na casa de Dr. André. Mentira, pois antes daquela visita em março de 2008, eu não tinha pisado em Rio Grande do Sul desde antes que o Moleque nasceu. A Serra Gaucho conheci duas vezes em volta de 1990, para reuniões da Associação Brasileira de Loterias Estaduais, na época em que eu estava montando a loteria "raspadinha" no Brasil.

Que eu conheci Dr. André, ou qualquer dos acusados, antes das prisões, é mentira. Foi invenção do Moleque sozinho, ou ele foi incentivado pela Cláudia de Cristo?

Irmã Natalina se aposentou; Claudia de Cristo assumiu a direção da Apromim. E afundou o orfanato. Fechou mesmo as portas. Pensei que o ofanato sobreviveria este crise, e que poderia falar com Claúdia, mas cheguei tarde.

Mas em março conversei com Irmã Natalina, que depois de alargar as responsabilidades do orfanato, rejuvenesceu uns 10 anos.

Cláudia de Cristo alardeava sua intenção de "profissionalizar" o orfanato. Começou com o próprio salário; Cláudia assumiu a diretoria de Irmã Natalina, por um salário sete vezes maior. Quem colaborava de boa vontade com o orfanato, e nunca cobrou, passou de cobrar - afinal, como Cláudia anunciava, não era, agora, uma instituição profissional, nos moldes modernos? E eles não viam Cláudia sempre do mesmo casaco e do mesmo chinelo, como viam a freira. Até as doaçãos de roupas e objetos, que dava para as necessidades do orfanato e sobraram para outras instituições, secaram.

Onde Irmã Natalina acolheu mais de setenta crianças, Claudia de Cristo não conseguiu sustentar a metade deste número. "Não acham que não tínhamos problemas financeiras nestes 24 anos?" irmã Natalina me perguntou. Mais ela sempre achou um jeito.

Cláudia de Cristo assumiu, e o orfanato afundou. Infelizmente, orfanato não é navio; o capitão não afunda junto.

As pedreiras

Em março, houve notícia no jornal Panorama de que houve fiscalização mais intenso pela Brigada Militar das pedreiras de Morro da Pedra e protesto em frente à Prefeitura, e agora que foram emitidos licenças temporárias às pedreiras.

Nos prevemos aqui em fevereiro de que a Brigada Militar ia endurecer a fiscalização das pedreiras.

Mas ser o primeiro de informar é uma das tarefas de jornalismo.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A promotora e as pedreiras

As pedreiras são o pano de fundo por tudo no Morro da Pedra. A estrada passa em volta, ou até dentro delas; o Colégio Jorge Fleck fica onde pedra grês foi retirada; os caminhões cheios de pedra e trabalhadores tomam conta das estradas no final de tarde, e do estacionamento do Barracão aos sábados. E o assunto que mais atrai leitores para este blog, é o arenito de Morro da Pedra.

Ximena Cardozo Ferreira (MPRS/Distribuição)
É um constante, mas em cada viagem, é diferente. Nesta última visita a Morro da Pedra, notei numa pedreira que sempre passo, uma nova placa com o número da licença ambiental. Visitando um trabalhador de pedra, vi um respirador pendurado no varal - e sua esposa até sabia que o filtro precisava ser limpado separadamente, sem o uso de água. Algo, então, está mudando: estão usando equipamento de proteção, é não somente "para inglês ver."

Uma que está mudando as pedreiras é a promotora deo meio-ambiente, dra. Ximena Cardozo Ferreira, cujo trabalho em prol do meio-ambiente já lhe rende o Título de Cidadã Taquarense. Falei com ela quinta-feira sobre sua luta.

Quando dra Ximena assumiu a promotoria do meio ambiente de Taquara em 2003, ela encountrou uma quantidade enorme de inquéritos civis sobre a extração irregular de pedra grês no município. Os inquéritos estavam em grande parte parados, muitos aguardando que FEPAM - a Fundação Estadual de Proteção Ambiental, em Porto Alegre - tomasse procedimentos para a regularização.

Um inquérito civil, ela explicou, é um procedimento extra-judicial - corre somente na promotoria, não na Justiça. Continua na Promotoria até que a situação é resolvida, ou se não for resolvida, o inquérito civil se transforme num processo mesmo na Justiça.

Foi criado um plano de procedimento, contando com a cooperação da FEPAM e também da Policia Ambiental, que faz parte da Brigada Militar. Uma das metas era chegar ao "passivo zero" de pedidos de regularização aguardando providências de FEPAM, e nesta etapa FEPAM cumpriu seu parte, fazendo as vistorias necessários para a concessão de licenças ambientais.

Esclarecimento e orientação

A primeira parte da campanha focou na educação, em esclarecer para a população a necessidade de regularizar. "Não adiante só fechar, e deixar centenas de pessoas sem trabalho."

Um exemplo da metodologia da dra Ximena foi uma reunião na sociedade de trabalhadores de pedra na comunidade de Fazenda Fialho, vizinho ao Morro da Pedra. "Era um momento de esclarecimento e orientação. Explicamos que quem não participava na regularização ia sofrer fiscalização. Mas também entregamos nas audiências as licenças já expedidas pela FEPAM. E para todos que ingressaram, fizemos uma espécie de moratória, enquanto os pedidos foram examinados."

Fiscalização

Houve no começo umas grandes "operações" com muito pessoal, até que FEPAM se retraiu neste área - o plano de ação não está mais operando. Porém, a fiscalização continua, agora sendo feito pelo MP e a Polícia Ambiental. Dra. Ximenta aponta que o novo comandante da Brigada Militar na região tem demonstrado preocupação com as pedreiras irregulares, até porque as pedreiras atraiam pessoas de outras comunidades que contribuem para a alta de criminalidade. Parece que o trabalho sem registro, ao margem das leis de trabalho, é atraente para quem age a margem da lei em outras áreas também.

Eu tinha ouvido exatamente isso de uma amiga criada em Morro da Pedra, que recomendou não andar a noite numa certa viela de Morro da Pedra, pois lá há uma grande comunidade de pessoas egressos de uma cidade maior da região.

Números

O número de inquéritos civis é vasto, e Dra. Ximena fez um levantamento quantitativa em outubro quando foi convidada a dar uma palestra na universidade ULBRA. Ela estimou em 500 os "frentes de trabalho" em Taquara, mas avisou que o número não quer dizer 500 pedreiras.

Ela mostrou a foto acima, explicando que "Esta é uma única propriedade, mas cada parede vertical aqui é um "frente" diferente, cada um com seu dono. Se poderiam cooperar seria uma licença e não sete, mas eles não conseguem chegar a um acordo entre eles. Então aumenta o número de procedimentos, que atrasa a regularização."

As licenças são de quatro anos, e prevêem não somente a extração da pedra, mas a recuperação ambiental da área. Seu cumprimento é fiscalizado pela FEPAM.

"O morro não acaba"?

Ouvi de Jairinho na minha primeira visita para Morro da Pedra, de que "o morro não acaba". Conforma a sabedoria local, depois uns anos de abandono, o mato retoma a pedreira - veja foto ao lado.

Não é bem assim, disse Dra. Ximena. Um paredão grande não volta à floresta sozinho. É preciso atos conscientes do homem para devolver a pedreira esgotada à natureza.

As licenças ambientais já contém as providências a ser tomadas durante a vigência da licença. "Até o final do tempo, já é restabelecida. Tudo isso já consta na licença."

Floresta Secundária

Sr. Side, o habitante mais antiga do pedaço, me contou de que 40 anos atrás, os morros visíveis da sua casa em frente da igreja "era tudo pasto e roça", e que as árvores de Morro da Pedra somente vierem quando o povo parou de cultivar a terra, e de pastar seus animais. Perguntei ao Dra. Ximena se esta floresta mais jovem que pessoas merecia tanta proteção ambiental.

"Brasil é um país de floresta secundária - quase não há floresta primária. Se a floresta voltou, é porque tinha um banco de sementes. A floresta foi desmatada, mas quando o cultivo parou, voltou. Todas as florestas - primários ou secundários - tem a proteção do Código Florestal", ela esclareceu.

Crianças, salubridade, meio-ambiente

Os problemas que mais ouvi associados com pedreiras são de trabalho infantil, condições insalubres de trabalho, e danos a meio-ambiente.

Trabalho infantil seria da competência da Vara de Infância, que é de Dra. Natalia, ao quem já dispensamos bastante atenção e pouco carinho aqui.

Os assunto de salubridade de trabalho seria um assunto para o Ministério Publico de Trabalho, que não tem em Taquara mas somente o regional em Novo Hamburgo, que cuida da região. Nós já notamos aqui, a fiscalização no MPT nas pedreiras.

Mecanização

"Antigamente acordamos de manha com o tec, tec, tec, de gente abrindo valeta com martelo. Hoje em dia, não se ouve mais isso" me contou uma mãe cuja familia mora ao lado de uma pedreira. Já tratamos aqui da maneira em que a pedra grês é retirada: valetas são feitas, e varas são inserido no horizontal para separar a pedra conforme suas camadas naturais. Hoje em dia as valas são abertas com serras elétricas, que criam a poeira tão nocivo aos pulmões dos trabalhadores.

Dra Ximena ache que a mecanização não procedeu tanto assim, que quando eles fazem alguma apreensão de ferramentas num pedreira irregular, é quase tudo martelo. Ela nota que pelo menos na extração de pedra grês o uso de explosivos não é um problema, pois a técnica é incompatível. Em saibro - também extraído na região - seria possível.

Ela veja a mecanização como algo que poderia racionalizar a extração de pedra grês, resultando em menos desperdício - menos dos cacos que muitas vezes acabam na beira dos rios.

Outra coisa que poderia ser benefício, a promotora disse, é a utilização de técnica melhor. A técnica tende a ser muito primário, sem orientação técnica. A corte reta, por exemplo, faz esgotar a pedreira antes.

Papel do município

Nós conversamos em 2009 com o Diretor de Mineração do Município de Taquara. Dra Ximena confirmou que a cidade assumiu a tarefa de regularização de pedreiras de até dois hectares. Ela está investigando um caso em que parece o município expediu uma alvará sem o registro com o DNPM, que deve ser anterior.

Ela continua, então, de olho. Enquanto aguardava a entrevista, notei no mural da MP um inquérito civil de 28/01/l1 sobre uma pedreira no Beco de Dorival, em Pega Fogo, outro sinal de que a fiscalização do MP continua.

Uso de tecnologia para fiscalização

Google Earth é uma tecnologia nova, e tem sido de grande utilidade para mim na minha investigação dos fraudes das terras da Colina do Sol, então perguntei de como a tecnologia tem servido no trabalho de fiscalização. Dra. Ximena contou que a promotoria até começou fazer sua propria mapa com as fotos feitas durante fiscalizações.Utilizam, sim, o Google Earth e outro geoprocesamento. (Em abril do ano passado, na festa do aniversário da cidade, vi as mapas digitais que o executivo municipal usam, e me disseram que há outro fonte com dados melhores do que os de Google para a região.) Ela conta também com o "Centro de Apoio Operacional" do Ministério Publico, em Porto Alegre.

Futuro de pedreiras de Taquara

O diretor da mineração municipal já nos falou do beneficiamento de pedra - o produto entregue como uma matéria nobre de acabamento, em vez de como um alicerce mais barato de que o concreto. Arenito Möller no RS020 é o exemplo mais indizível da tendência. Dra. Ximena está a favor da tendencia, dizendo que "Quanto mais se agregar, mais retorno, traz benefícios para a comunidade.” O aumento quantitativo de que ouvi, o Ministério Público não está sentindo. Mas a promotora não está preocupada com mais pedra sendo extraída, afirmando que "o que nos preocupa é a clandestinidade."

"Uns acreditaram que ficaríamos somente na conversa. Mas quem extrair sem licença será sujeito a ação nas três esferas: administrativa, civil, e criminal. Tanto mais cedo regularizar, mais barato fica".

Outro ponto que ela quer que seja entendido, é que enquanto geralmente o dono da terreno somente arrenda a pedreira ao outro que a explora, "Ambos sujeito as penas, o dono e quem explora. Ainda, quem compra terra com uma pedreira com problemas ambientais, compre os problemas juntos. Pela legislação, as responsabilidades fica com "a coisa".

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Infância nas pedreiras

Douglas Anner Louderback é uma figura emblemática do contraste entre Morro da Pedra e Colina do Sol. Pulou grande parte da infância, começando trabalhar nas pedreiras aos nove anos. Baixinho, miudinho, e aparentmente tímido, ele é bem a vontade em áreas de nudismo, e pelo todas os relatos que colhi, uma dádiva para as mulheres de qualquer idade.

Vamos aprender mais sobre ele e a infância no Morro da Pedra. No futuro próxima, falaremos de amor adolescente no campo de nudismo.

Pivo das falsas acusações

Douglas é o pivô do caso Colina do Sol.

O acusador original, Zumbi, levou acusações de pedofilia para a polícia um dia depois do que a Sra. Zumbi se mudou de mala e cuia para Santa Catarina com Douglas, com quem ela manteve relação amorosa o desde os quinze anos dele.

E ela era bem longe de ser a primeira, ou a única.

A corja da Colina reclamou do rapidez com que Fritz e Barbara adotou Douglas. Tendo um filho brasileiro evitava que eles fossem deportados. Tinham um herdeiro para sua casa, que assim não poderia ser facilmente despropriada pelo Conselho da Colina. E um herdeiro que poderia cobrar as quantias que vários membros destes conselho deviam para Fritz.

A chegado de Douglas na comunidade naturista criou um dor de cabeça tanto para Zumbi quanto para o Conselho da Colina do Sol.

Filho de Morro da Pedra

Cicatrizes do Douglas

Visitei Douglas em Biguaçu, SC, no domingo de 21 de dezembro de 2008. Estava muito quente e ele estava somente de calçaõ, e perguntei sobre seus cicatrizes. Logo peguei meu caderno e pediu para ele repetir, pois pareciam uma boa resumo de infância em Morro da Pedra.

Joelho, 5 pontos :
"Quando eu era bem moleque, eu subi no pé de arvore, usando cerca de arame farpado como escada. O galho quebrou, e cai na cerca. Arrancou um naco de carne."
Cicatriz fina, branca, cruzando mamilo direto:
"Foi um prego, quando cai de um árvore. Eu fazia escadinha para subir, pregando madeiras no tronco, e um pau quebrou."
Cicatriz pequena, perto no umbigo:
"Eu estava brincando com fogo, ascendo uma peça de plástico, e uma gota de plástico me pegou bem ai."
Mão esquerda:
"Foi um corte de facão, descascando cano de açúcar para chupar."
Mão esquerda, dedo de meio torto:
"Cortei trabalhando, quando tinha uns dez anos. Estava jogado pedra no caminhão, a pedra lascou, e me cortou. Levaria cirurgia para desentortar."
Canela esquerda, uns 10 cm abaixo do joelho:
"Levei uma chifrada de boi no Circo Vargas. Estava com muito medo, lá."
Joelho esquerdo:
"Queimei no moto semana passada."
Canela direta:
"Aqui foi o moto também faz uns dois anos."
Ponto roxo na unha do dedão esquerda:
"Foi uma martelada no serviço."
Costas, lado inferior de baixo, uns 10 cm de comprimento, 1 cm largura:
"Eu subi num árvore para roubar goiaba, e o galho quebrou. Cai na cerca de arame farpado."
Não visível:
"Quebrei o cóccix, quando cai de cima de um árvore bem alto, de costas."
Na nádega esquerda:
"Tenho marcas de uma mordida de cachorro, quando tinha uns sete anos. Eu era bem pião. For o cachorro da merendeira. O corrente quebrou, e o filho da mulher não conseguiu segurar o cachorro pelo corrente. Tomei injeção contra raiva."

Douglas nasceu de mãe solteira, que não tinha condições de criar-lo, e ele foi dado para tios.

O tio de Douglas trabalhava nas pedreiras de Morro da Pedra, um serviço que paga melhor do que as fábricas da região. Porém a poeira constante prejudica as pulmões, e é bastante comum que homens da região chegam ao meia-idade com dores constantes no peito. O único remédio alcançável para remediar o dor é pinga. Quem tem efeitos colaterais.

Na pedreira as nove anos

Douglas começou trabalhar nas pedreiras as nove anos, quando estava na 3ª serie, pois “tinha que ajudar em casa”. Seu irmão também começou cedo. Ele disse que, “Agora não tem mais de 9 anos trabalhando mas tem 10, 11, 12 - sempre tem. 13 anos é mais comum.” “Ninguém pede documentos – só perguntam se saber fazer.”

As crianças, ele disse, foram bem tratado pelos trabalhadores mais velhos. Tinha tiração de sarro, mas é toda familia. Um tio dele trabalhava na mesma pedreira, e tinha um primo de 13anos e outro de 10, também.

Sobre o Conselheiro Tutelar, disse que nunca viu lá, que “Nunca vieram incomodar”. E a escola também, “não incomoda, sabe que tem que ajudar em casa.”

Um adulto consegue tirar mais na pedreira do que o salário mínimo que uma fábrica paga. As crianças ganham menos. Na época que Douglas diz que quando ele começou era “cinco pilha por semana”, mas hoje em dia é R$15 uma tarde ou manha por uma criança. Ele tirava caco, carregava caminhão, e carregavam pedras menores. O turno dele era das 13:00 até as 18:00.

Até pedras menores são pesadas para uma criança em desenvolvimento, e dá problemas na coluna. Douglas foi avisado de que se ele voltasse a trabalhar assim, pode ficar paralítico. Mas diz que sua estatura nada tem a ver com o trabalho precoce, que era “sempre mais miudinho”.

Estudo interrompido

Douglas sempre começou o ano estudando meio período, e trabalhando meio período. Ele diz que as vezes não queria ir mais, proque era muito puxado trabalhar na pedreira e estudar no colégio. Então tinha que parar colégio, ele disse. Sempre ia mais ou menos metade do ano escolar, e parava. Ele estava atrasado na escola, mas conforme o irmão dele, ““Estava progredindo lá, apareceu resultados. Numa época, ia para colégio de manhã, e Fritz levava para Taquara para reforço. Estava progredindo. Mas passa por coisas normal de adolescente. Sempre sai atrás de mulheres. É namoradeiro”.

Depois do que ele foi adotado, e disse que “passei ano – eu gostei.” As matérias prediletias dele são educação física, artístico, e história. Ele estava fazendo supletivo de 6ª, 7ª, 8ª serie, juntos, antes das prisões. “Fritz e Bárbara ficarem pegando no pé” para estudar, ele diz. Tão cedo que consegue sua carteira de motorista, votará de novo ao supletivo.

Problemas de disciplina

Seja por falta de estrutura em casa, seja por temperamento, seja por adolescência, Douglas ganhou fama de difícil. Para da um exemplo, um centro da vida comunitário é o Barracão de Morro da Pedra, que serve tanto para grandes festas da igreja, quanto para futebol e outros jogos. Foi reformado graças a dinheiro que Fritz conseguiu dos Estados Unidos.

Porém, em 2007 Douglas pegou um suspensão de três anos do Barracão, por causa de uma briga. Ouvi que ele cuspiu num outro jogador; Douglas contou que o time dele estava brigando, e os outros começaram a briga.

De qualquer forma, vale notar que no Morro da Pedra a influência de dinheiro não é tão forte que não se expulsa o filho do homem que trouxe a grana.

Um efeito das prisões e problemas é que Douglas amadureceu muito. Agora ele e o irmão que dão as aulas de futebol, sábado a tarde, para as crianças de Morro da Pedra.

Cristiano, Fritz, Barbara, Douglas

Conhecendo Fritz e Barbara

Foi via Cristiano Fedrigo que Douglas conheceu Fritz. Um dia Cristiano encontrou Douglas dormindo na área da casa do padrinho. Cristiano ficou com pena e pediu para Fritz ajudar Douglas.

Douglas ficou um tempo morando no caso de Fritz e Barbara, e resolveram adotar-lo. Fritz tem outros filhos nos Estados Unidos, uns de sangue, outros adotados. Foram os três para os Estados Unidos em agosto de 2007, para que Douglas poderia conhecer seus 28 parentes novos.

Ele comunica com Fritz e Bárbara numa combinação de inglês e português. Ele diz não sentir dificuldade para comunicar, e enquanto fala pouco inglês, parece que entende quase tudo que passa.

Na Colina do Sol

Na casa de Fritz e Barbara, Douglas ganhou um dos dois quartos de hóspedes. Parece um quarto de adolescente típica, dominado por uma grande bandeira quase do Brasil, com o círculo azul trocado por um logotipo de Grêmio. Há uma Bíblia ao lado da cama.

Roberto Fedrigo e Douglas no resort naturista Mirante do Paraíso

Nudismo com naturalidade

Nedy, que cuidava da casa, conta que Douglas costuma fica nu o tempo toda, pelo menos no verão. Quando ele foi para Santa Catarina com a então Sra. Zumbi, acampou na Praia do Pinho e começou trabalhar aos 16 anos no quiosque de Kibon da praia, completamente pelado. Depois de uma semana começou usar short e camisa com logotipo da praia, ao sugestão do dono, que conheceu que não todos que freqüentam praia de nudismo conseguem levar a naturismo com tanto naturalidade.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Pedra Grês sai de baixo

Na minha visita mais recente a Taquara, consegui uma entrevista com o novo Diretor de Mineração do município, Clovis Moreira da Silva, que me contou muito sobre a pedra de Morro da Pedra.

A pedra grês concorre, para calçadas, com basalto da serra gaúcha, e ardósia de Santa Catarina. É usado também para lajes, e em blocos mais espessos para alicerces. Com o aumento em preço de basalto, e o começo de beneficiamento de pedra grês, o produto está encontrando mercados novos e indo mais longe.

Basalto: mais duro, mais caro

A pedra ígnea basalto, mais duro, e encontrado na Serra Gaucha, como por exemplo na região de Nova Prata. As calçadas na região comercial de Taquara são feitos de basalto, mais durável do que a pedra grês. Vem encarecendo porque a Serra é coberto com mato nativo, e novos leis ambientais dificultam a remoção da vegetação, para chegar à pedra. Com poucas pedreiras, o preço vem subindo.

Pedra grês: valor varia com densidade

A pedra grês é mais mole do que basalto, mas há variações de dureza, cor e preço. Tanto mais duro, melhor e mais caro. Geralmente, começando uma pedreira, a pedra de cima é mais mole, e endureço tanto mais fundo a escavação desce. Uns lugares tem pedra mais dura em cima, mas a maioria não.

O preço médio de pedra grês no momento varia de R$50 a R$60 o metro cúbico na pedreira. As pedreiras de de mais difícil acesso, e as pedras mais moles, são mais baratas.

Indo mais longe

Cruz Alto, Sobradinha, Taquari são uns lugares que tem recebido lajeados e outra formatos de pedra grês. "Já tá indo bem mais longe do que dez, quinze anos atras, devido ao aumento do preço de basalto." Porém, pedra é um produto em que o frete encarece muito. "Pessoas vem de longe, mas na hora de ver o transporte, inviabiliza", diz Clovis.

Uso à vista crescendo

Na minha primeira vista a Taquara, notei o uso de pedra grês nas calçadas da cidade, e para fazer alicerces em construções novas. Ambos são usos que nunca encontrei antes, e que seriam de alto luxo nos Estados Unidos. Porém, encontrei muito pouco uso aparente ou decorativa da pedra. A pedra é semelhante em aparência ao "brownstone" típica das casas de Manhattan do século passado e retrasado, que dependendo da qualidade, dura de 5 a 200 anos.

"Não temos esta cultura" de usa pedra grês a vista, diz Clovis, "mas tem gente beneficiando, serrando, lixando," apontando um beneficiador na RS20, perto da parada 122, a Arenito Möller. "Tá criando um mercado novo." Há também gente na próprio Morro da Pedra, em que a pedra vai da lavoura direta para as galpões para beneficiamento.

Variações de cores

A cor mais típica de pedra grês é marrom, mas "há amarelo, camurça, e umas quase brancas. Poucos, mais tem."

Desafios

A pedra grês é um arenito, formado por camadas no fundo do mar, quarenta milhões de anos atras. Desde então, o mar virou serra, as camadas dobrando e virando. Clovis aponta que a mão de obra está ficando mais difícil. "Tem que entender as veias, como cortar. Não é mão de obra desqualificado."

Máquinas não adaptam bem à pedra grês

"O serviço é muito bruto, e tem que mecanizar". Porém, as máquinas são feitos para trabalhar no nível, e as pedreiras deste arenito precisam seguir as veias da pedra. Trabalhar num inclinação pode quebrar o disco da máquina, e os discos são caros. Poucos máquinas, como o "rompedor", são usados nas pedreiras de Morro da Pedra.

Meta de regularização

Um novo lei permite que o município legaliza pedreiras de até dois hectares. A prefeitura assumiu um compromisso, diz o diretor de mineração, e "vai legalizar tudo mundo."

Isso não quer dizer uma liberação geral, mais que todos estariam colocados em conformidade com a legislação. A prefeitura "quer passar a limpo, colocar a casa em ordem". Ao longo do tempo, ou até num tempo curto, a prefeitura pretende regularizar as pedreiras, e Clovis não esconde sua satisfação de que o produto nativa da terra de Taquara está encontrando novos e mais nobres usos, num território maior.

sábado, 25 de abril de 2009

As pedreiras de Morro da Pedra

O nome de Morro da Pedra vem de uma pedra no Rio dos Sinos que era uma marca de navegação fluvial. Mas a economia da comunidade vem da exploração da pedra mais típica do local, a pedra grês, um arenito marrom que pavimenta as calçadas de Taquara, e forma as alicerces das casas.

Serve também para construir os túmulos do cemitério da comunidade, onde os trabalhadores chegam na meia idade.

Tirada em camadas

Arenito é formado de areia que foi depositado em camadas, e sai da pedreira do mesma maneira em que foi formado. Para levantar uma camada de pedra, são cortados canaletas, que marcam uma área grande, de umas quatro ou cinco metros por lado, até a profundidade desejada. Para cortar as canaletas o canaleiro use um martelo elétrico ou pneumático. Depois ferros são batidos no horizontal, e a camada separa.

Na pedreira nos fotos, a camada é somente um pouco fora do nível. Muitos vezes tem um aclive, de dez graus ou até mais. Enquanto o arenito foi formado em camadas nivelados, a pedra é mais antigo que os morros, cujo levantamento tirou a pedra do atitude original.

A camada separada é recortada em chapas de umas 15 ou 20 cm de espessura para para calçados, lajes, etc., ou em blocos para alicerces, muros, e paredes, estes sendo geralmente de altura e largura de um bloco de concreto, mas umas duas vezes mais comprido. O cortador marca as linhas de corte com uma serra elétrica ou frisadeira, e o corte é completado com talhadeiras (veja foto ao lado).

A frisadeira alivia o trabalho braçal, mas a poeira que levanta entope as pulmões dos peões, que trabalham sem respiradores ou outros equipamentos de segurança. O respiração da poeira leva para o dor constante no peito, para a aposentadoria precoce, e para a alcoolismo, como maneira de lidar com o dor. As pedreiras são a vida das famílias, e o morte dos pais, e os jovens do Morro da Pedra começam cedo nelas.

Uma vez cortadas, as pedras pesadas são colocadas a mão em caminhões, que deixam Morro da Pedra no final da tarde com o produto, e com a mão-de-obra. Em uma hora, passei meia-dúzia de caminhões com as carrocerias lotados com pedra gres cortada, muitos com os peões sentados em cima da carga, uma fileira para cada lado do caminhão. O trabalho de carregar as pedras, e especialmente de tirar os cacos que sobram, muitos vezes é de crianças.

O trabalho infantil

O trabalho infantil é bastante comum nas pedreiras. Um jovem que começou aos nove anos conta que, "Agora não tem mais crianças de nove anos trabalhando, mas tem de 10, 11, e 12. Sempre tem. Treze anos é mais comum." As crianças ganham entre R$10 e R$15 por uma turno de trabalho, ou de manha, ou de tarde.

Um pai defendeu a prática, dizendo "Melhor trabalhando do que na rua."

O trabalho das criança é geralmente de tirar os cacos, e coloca-los no caminhão. Mas carregam pedras mais pesadas também, que é ruim para as costas. Um adolescente falou que todos que trabalham nas pedreiras tem problemas de costas - mas os que não lá trabalham podem ter também.

O poder público é ausente das pedreiras. "Nunca vi ninguém implicando com menor trabalhando, nunca vi o Conselho Tutelar," disse um jovem, que "trabalho porque quero, uso o dinheiro para comprar roupa." Outro jovem disse que até a "escola não incomoda, sabe que tem que ajudar em casa."

Um morador que gerencia uma pedreira disse que se o trabalho infantil diminuiu, é por causa do crise do setor de calçados, outro fonte de emprego na região. Com as fábricas de sapatos parados ou produzindo pouco, há mão-de-obra adulto disponível. Quando a indústria recuperar, o trabalho infantil aumentará outro vez?

O fim de uma pedreira

Enquanto umas das pedreiras são "seculares", e outras definidas com mais precisão como produzinso já mais de vinte ou trinta anos, é comum que uma pedreira seja fechada. Às vezes a pedra se esgota: começa apresentar muitas manchas e rachaduras, e é abandonada. Outro motivo moderno de fechamento é interdição pela IBAMA. Várias das pedreiras estão como todos as autorizações em dia, mas muitas não. A fiscalização é periódicao: moralizações ocasionais, separadas por longos intervalos de esquecimento.

Se uma outra pedreira foi aberto próximo aquela que fechou, as camadas indicias de terra e pedra mole, e os eventuais cacos, podem ser usados para encher o buraco antigo. Jairinho, morador antigo, afirma que "o morro não acaba", que o mato se regenera facilmente. Veja foto ao lado.

Umas pedreiras abandonadas anos atrás na época do corte manual podem ser reabertas. Com os ferramentos elétricos ou pneumáticos, podem ser rentáveis de novo.

Umas pedreiras enchem com água, e viram piscinas das crianças locais no verão. Esta da foto é do bairro de Pega-Fogo, é foi descrita por uma mãe como "uma coisa horrenda, com profundidade de 14 metros, e o fundo cheio de blocos de pedra e ferramentos abandonados." Os moleques pulam da borda.

As outras pedras

Além da pedra grés, no Morro da Pedra é explorado pedra ferro e saibreira. As duas são tiradas com uso de dinamite. A pedra ferro é bastante densa, e como a sabreira (que parece mais saibro do que pedra) é usado em pavimentação. As normas da construção da Colina do Sol, por algum motivo, exigem na construção de casas o uso da pedra ferro e não da arenito mais típica de Morro da Pedra.