sábado, 30 de julho de 2011

Apromin, 1942-2011

Foto: Jornal Panorama
O orfanato Apromin acolheu crianças de Taquara de 1942 até seu fechamento este ano. Umas das supostas vítimas no caso Colina do Sol eram do orfanato, notavelmente O Moleque que Mente®. Várias acusações deste foram colhidas, e talvez plantadas, adubadas, e regadas também, pelo assistente social Cláudia de Cristo, que conseguiu afundar em 24 meses a instituição que Irmã Natalina conduziu durante 24 anos.

Na primeira semana que eu estava em Taquara, visitei o orfanato, conversei com a Irmã Natalina, e fiz o turismo básico. Vale notar que além de ter forte interação com o Promotoria e a Vara de Infância e Juventude, fica na mesma Rua Federação que o Ministério Publico, a 230 metros de distancia, e 200 metros em linha reta do Fórum.

Em 2008, depois da visita ao Apromin, escrevi minha impressões, que seguem abaixo. Numa entrevista posterior, Irmã Natalina fez umas correções sobre o convênio com a prefeitura, que anotei na minha cópia do relatório, que emprestei para uma das Autoridades Competentes que está olhando o caso, então não tenho aqui para corrigir o texto.

O tempo mudou a realidade aqui retratada, também. A esperança de uma solução rápido para o caso Colina do Sol se foi, devida a intransigência da promotora, que tinha de "substância" somente as mentiras fornecidas pela Cláudia de Cristo. E a esperança que senti naquela visita ao orfanato, também já se foi, com a fechamento do Apromin.


Da cima da escada do Lar Apromin, há uma vista de uma cidade do interior, e na distância, os morros verdes da Serra Gaúcha.

Dentro, um homem de uns trinta anos aguarda ver uma menina que "me diz que é a minha filha". Ele aproveitou uma folga de trabalho para vir; em suas mãos é um presente, endereçado pela sua filha de sete anos para sua talvez meia irmã.

Na sala de teto alto, pequenas notícias informam o horário de visita, que não é agora. Mas logo uma assistente jovem aparece do fundo da instituição com uma menina de dois anos nos braços. A pequena está pouca à vontade, e vai primeira para Irmã Natalina, que conhece o peso da menina, a data da última visita do talvez pai, quantos dentes a menina tem, e para sua parte, a menina claramente não estranha o colo da diretora da instituição.

O par some para a visita. Irmã Natalina faz um esforço para relembrar a história da instituição, fundado em 1942. Mas quando o assunto passa para as crianças da casa, a hesitação some. Atualmente há 72 crianças ali no abrigo, a mais jovem de 8 meses.

Freira das Irmãs da Nossa Senhora, ela nota as mudanças. Quando ela começou em 1985, o lar abrigava somente 20 crianças. Hoje, beiram 80, e a tendência é de aumentar. Com a ECA, há uma rotatividade, pois a meta é reunir as crianças com suas famílias.

Quando a irmã chegou, uma das crianças no lar estava lá por que sofreu abuso sexual. Hoje é a maioria, encaminhadas pelo Conselho Tutelar local, depois de receber denúncias de vizinhos, ou até da própria criança, especialmente tratando de adolescente.

Umas vinte por ano saem para a adoção, ultimamente para famílias da região. A ultima adoção para um estrangeiro foi mais de dez anos atrás. Mais crianças seriam adotados, se o processo fosse mais ágil. E a Justiça, é lenta.

O talvez pai volte com sua talvez filha, a pequena agora mais a vontade. A diretora aconselha o pai a fazer o teste de paternidade "no laboratório que indiquei" – pelo estado, pela Justiça, já demorou muito, e vai demorar mais.

A instituição guarda uma tristeza, uma ala que já abrigou uma escola para 200 alunos, onde crianças ficaram durante o dia inteiro, com aulas e apoio social. Mas faz dois anos, a Prefeitura cortou o subsídio, e as salas estão vazias.

A instituição tem fortes ligações com Taquara, e nela transborda as aflições da cidade. “"Fabricas de sapatos estão fechando, e com desemprego dá briga em casa, e a criança vira saco de pancadas. Tudo sobre para ela."

Mas também é o apoio da cidade que sustenta a Apromin. Seu prédio foi construído em regime de mutirão na década de 50, e por muitos anos a instituição funcionou a base de trabalho voluntário.

E uma outra tristeza. A irmã aborda com hesitação o assunto do dentista André Herdy, "Ele foi voluntário, e queria adotar uma criança. Ele trabalhou muito bem, e foi um excelente profissional. Foi uma grande tristeza. Nem leio mais as noticias, por que dói."

As irmãs são cada ano menos. Mas Irmã Natalina esta mais do que contente com sua vida e obra. "Eu ouvi o chamado, e escolhi o caminho. Aqui a gente aprende a viver, de valorizar a vida. Aprendi com as crianças, que são uma faculdade."

Dormitórios de meninos e meninas

Uma funcionária nova, Suzy, mostra com orgulho os dormitórios da casa. Nos quartos das crianças pequenas, cores alegres dominam. Um quarto de meninas adolescentes tem a bagunça própria a qualquer dormitório, meninos da mesma idade têm uma prateleira de camionetes de brinquedo. As dormitórios são recentemente reformados, ou para ser reformado no futuro próxima. Trabalho que depende de doações. Porém, as salas administrativas têm móveis polidos por muitos anos de uso. O refeitório tem uma mesa na copa para os funcionários, que difere das crianças somente em que as cadeiras são maiores.

Uma porta de grade de ferro separa a ala de meninas dos meninos, e o quarto da Irmã Natalina fica perto deste portão. Porém, um desenho de lápis de uma mulher formosa e pouca vestida, enfeitando um quarto na ala masculina é encarado com naturalidade por Suzy, que o despreza como “coisas de adolescente”. Sobre as salas de televisão separadas por sexo, ela clarifica que não é um moralismo exagerado, "É que menino assiste futebol, e menina quer assistir novela."

Há pequenos sinais das dificuldades pelo qual as crianças passam. Um ou parede de placa de gesso mostra um buraco de um chute. O estante da despensa médica ostenta muito remédio de tarja preta.

Sala odontológica

A sala odontológica é limpa, a cadeira virada para a porta. Atrás da cabeça, onde trabalharia o dentista, duas enormes janelas antigas iluminam a ambiente. Ali, explica Suzy, são atendidos as crianças, e os funcionários, igualmente. Mas é quarta-feira à tarde, o horário em que André atendia, e a sala está vazia.

Programa famílias acolhedoras

Suzy explica a programa de "famílias acolhedoras", em que famílias levam crianças da Apromin para um final de semana em casa. Mais de duzentos famílias são cadastradas, entre elas a de Suzy. A programa serve para que as crianças aprendam a vivem com sociedade. Há regras para que eles não fiquem apegados demais, como de que a família não pode levar a mesma criança mais de uma vez por mês.

Berçário

No berçário, cinco crianças estão num sofá, incluindo a menina que recebeu a visita do talvez pai. Elas encaram um visitante com alegria e sem o menor desconfiança. "Quer colo" uma repete, até alcançar seu desejo. Na hora de sair, o pedido é "beijo". São claramente felizes.

Uma das crianças consta nas acusações contra o dentista André, e é nesta sala que Cleci trabalhava como voluntário.

Cuidar das suas crianças é uma das tarefas mais básicas de qualquer civilização. Saindo da porta do Apromin, olhando as montanhas verdes, fique a sensação de que ai, o desafio está sendo enfrentado não como um obrigação, mas como uma vocação, e com amor e esperança. Na ala vazia da escola, as portas estão recebendo uma demão de zarcão, para aguardar um futuro em que crianças voltam de aí aprenderem. Há esperança.

A sala odontológica, vazia numa quarta-feira de tarde, também aguarda.

2 comentários:

  1. Como uma pessoa supostamente qualificada como a Cláudia de Cristo conseguiu fechar o orfanato em 24 meses de administração? Problemas financeiro certamente aconteceram sobre a administração da Irmã Natalina logo isso não me parece desculpa adequada para justificar o fechamento da mesma. Quais as razões que levaram a troca da administração ( da Irmã Natalina para Cláudia de Cristo)? Certamente a Irmã Natalina nada ou pouco recebia para cuidar do orfanato ( como uma boa religiosa) já quanto recebia a Cláudia de Cristo?

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  2. Eu já morei lá. e quer saber? Era um inferno!

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